Ouro e Prata: rali e crash dos metais
A tese “metais como proteção” costuma soar simples na teoria. Na prática, 2025 e o começo de 2026 mostraram um retrato mais ambíguo e, por isso, mais útil para o investidor: ouro e prata podem funcionar como hedge e diversificação, mas também podem impor volatilidade e drawdowns que lembram ativos de risco.
Este artigo foi escrito com foco em fatos, números validados e leitura orientada a portfólio (especialmente para quem vem de renda fixa). A pergunta que guia a análise não é “vai subir ou cair”, e sim “em quais cenários faz sentido ter exposição a metais — e qual o custo (inclusive emocional) de carregar essa posição”.
Para padronização de séries: em 2025, usamos os dados oficiais do relatório de mercado da Reuters (retornos, máximas e mínimas), que se baseiam nas referências LBMA (ouro) e LBMA Silver Price (prata). Para o câmbio USD/BRL, usamos a PTAX “dólar comercial para compra – média” (série diária), apresentada pelo CMEGroup com fonte explícita no Banco Central/SGS.
Aviso: este material é informativo e não é recomendação financeira.
Ouro e Prata: o que foi o rali e por que importou
Pelo recorte mais objetivo, preço e fluxo, o “rali dos metais” em 2025 combinou duas características raras ao mesmo tempo: valorização muito forte e participação crescente de investidores institucionais via ETFs, com máximo histórico de entradas em ouro, segundo a gold.org
Em 2025, o relatório “LBMA Precious Metals Market Report” registrou para o período 2 de janeiro a 31 de dezembro: ouro com ganho de +62,90% e prata com +144,82%. No mesmo relatório, a prata fechou 2025 em US$ 71,990/oz e o ouro teve sequência incomum de níveis elevados ao longo do quarto trimestre.
O início de 2026 elevou a temperatura. No final de janeiro, as cotações bateram novas máximas: o ouro ultrapassou US$ 5.100 e acelerou até um recorde intradiário de US$ 5.594,82/oz em 29 de janeiro (spot), enquanto a prata também marcou recorde, com US$ 121,64/oz (spot) na mesma janela.
A virada veio rápida e violenta. Entre o pico de 29 de janeiro e 2 de fevereiro, a prata desabou para US$ 76,81/oz (spot), uma queda aproximada de -37%. No ouro, o movimento foi grande para o padrão histórico do metal, mas menor: para US$ 4.630,59/oz (spot), cerca de -17% desde o pico.
Por que isso importou? Porque o episódio desmonta dois extremos comuns em discussões de portfólio:
- o extremo “metais são sempre proteção e quase não caem”;
- o extremo “metais são pura especulação e não servem para nada”.
O que os dados sugerem é mais desconfortável — e mais realista: metais podem proteger em certos choques macro, mas também podem virar fonte de risco quando o próprio “motor do rali” (juros reais, dólar, alavancagem, fluxo) muda de direção.
Ouro e Prata: por que subiu em 2025
O pano de fundo de 2025 mistura macroeconomia e microestrutura. A alta não foi explicada por um único fator; ela foi um “efeito portfólio” global, em que ouro e prata se beneficiaram quando várias peças encaixaram ao mesmo tempo.
Juros reais e dólar: o canal clássico (e o mais ignorado por quem vem da renda fixa)
Para o investidor de renda fixa, a maneira mais direta de entender o ouro é via custo de oportunidade: ouro não carrega cupom. Em geral, quando juros reais sobem, o custo de “trocar” um ativo remunerado por um ativo sem renda aumenta; quando juros reais caem, esse custo diminui.
Em 2025, a leitura do (via FRED) mostra que os rendimentos reais dos TIPS oscilaram e ganharam centralidade na precificação macro. Esse canal aparece de forma explícita na própria narrativa da WGC sobre ETFs: um dos motores citados para o recorde de entradas em 2025 foi a queda do custo de oportunidade “à medida que yields caíram e o dólar enfraqueceu”.
Compras institucionais: recordes de demanda e de ETFs (ouro)
O diferencial de 2025 foi a amplitude do fluxo institucional para ouro.
No fechamento do ano:
- a WGC aponta “o ano mais forte de entradas já registrado” em ETFs de ouro: US$ 89 bilhões de entradas líquidas em 2025, com o AUM global dobrando para US$ 559 bilhões e as posições chegando a 4.025 toneladas (recorde).
- no “Gold Demand Trends” (Q4 e ano cheio), a WGC registra demanda total global acima de 5.000 t em 2025 (incluindo OTC), com investimento total em 2.175,3 t (+84% a/a) e fluxos em “ETFs & similar products” de +801,2 t no ano.
Esse não é um detalhe. ETF é uma “ponte” que transforma intenção macro (alocação) em compra física (ou lastro físico), reforçando tendência e, ao mesmo tempo, podendo exacerbar reversões quando o fluxo inverte.
Bancos centrais: compra menor do que 2024, mas ainda historicamente alta
Outro vetor importante foi o setor oficial. As compras líquidas em 2025 ficaram abaixo de 2024, mas permaneceram historicamente altas e relativamente distribuídas entre países. Esse tipo de demanda tende a ser menos sensível ao “timing” de curto prazo e ajuda a criar base de sustentação, principalmente quando o debate global envolve diversificação de reservas, risco geopolítico e confiança institucional.
Geopolítica e risco institucional: mais do que “hype”, um catalisador de fluxo
Em 2025, além de economia americana, dólar e expectativa de juros, a persistência de conflitos e episódios de ruído institucional em economias centrais alimentou a busca por ativos percebidos como proteção. Para a prata, o rali foi descrito como meteórico, com mistura de demanda de investimento e narrativa ligada à demanda industrial, especialmente em eletrônicos e solar.
Ouro e Prata: por que fez máxima em 2026
O começo de 2026 foi continuação do regime de 2025, mas com aceleração típica de mercado em que o preço passa a comandar o fluxo. Em geral, quando máximas se multiplicam, parte do dinheiro entra menos por fundamento estrito e mais por rebalanceamento, momentum, proteção tática e medo de ficar de fora.
A prata também entrou nesse modo. Ela já vinha subindo forte e, na janela de fim de janeiro, carregava ganho expressivo no ano, em paralelo a movimentos de dólar e reprecificação de juros.
Ouro e Prata: o crash >30% — o que aconteceu e por quê
O briefing pedia um “crash >30%” em ouro e prata. O dado, quando checado, exige uma correção importante:
- no ouro spot, o movimento foi um crash relevante, mas não superou 30% no recorte pico→fundo do final de janeiro para início de fevereiro;
- na prata spot, houve sim um crash acima de 30% no mesmo tipo de janela.
Onde o crash >30% aconteceu (definição objetiva)
Para evitar ambiguidade, aqui está a definição usada:
- Instrumento: spot (cotação à vista reportada em mercado internacional)
- Janela: pico em 29/01/2026 → fundo em 02/02/2026
- Fonte de pico/fundo: Reuters (spot gold e spot silver)
- Conversão USD→BRL: PTAX “compra – média” no câmbio USD/BRL (datas correspondentes)
Na prata:
- Pico: US$ 121,64/oz (spot) em 29/01/2026
- Fundo: US$ 76,81/oz (spot) em 02/02/2026
- Queda aproximada: -36,85% em USD no pico→fundo.
No ouro:
- Pico: US$ 5.594,82/oz (spot) em 29/01/2026
- Fundo: US$ 4.630,59/oz (spot) em 02/02/2026
- Queda aproximada: -17,23% em USD no pico→fundo.
A conclusão factual é: o “>30%” não é um evento de ouro spot nesse intervalo; é um evento de prata spot.
A sequência de eventos (o “por quê” com base em evidência)
A leitura mais consistente para esse tipo de movimento costuma combinar macro e microestrutura.
No lado macro, houve reprecificação de expectativas de juros e do dólar. O noticiário atribuiu parte do gatilho à indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, algo que alterou expectativas e pressionou metais precificados em USD.
No lado de microestrutura, o ponto central foi margem e desalavancagem em derivativos. Em contratos futuros, aumento de exigência de margem força escolha: aportar mais capital para manter posição ou reduzir posição. Em ambiente de alta alavancagem, isso costuma gerar efeito dominó com stops, chamadas de margem e liquidações. Esse mecanismo pesa mais na prata porque ela, historicamente, tem maior volatilidade e costuma carregar mais “beta” em regimes de estresse.
Quem vendeu e por quê
A pergunta “quem vendeu” costuma ser respondida com opinião. Aqui, a resposta mais prudente é amarrar em duas evidências: posicionamento agregado por categoria e a mecânica de margem que força venda.
O que o COT indica sobre exposição de especuladores
O relatório “Disaggregated Commitments of Traders” da CFTC é uma fotografia semanal. Ele não captura o intradiário do crash, mas ajuda a mapear quem estava grande e, portanto, quem tende a ser forçado a agir quando o mercado vira.
Na semana de 27/01/2026, pouco antes do pico:
- Prata: a categoria “Managed Money” aparecia com posição relevante, e já havia sinal de redução de risco em relação à semana anterior.
- Ouro: “Managed Money” também carregava posição expressiva, com redução do net long na comparação semanal.
Interpretação conservadora:
- havia exposição relevante de gestores e especuladores nos dois metais
- existe sinal de redução de risco na semana do pico, compatível com volatilidade crescente
- com ajuste de margem e reversão rápida, é plausível que parte relevante do vendedor tenha sido posição alavancada sendo forçada a desalavancar
ETFs e fluxo lento: base estrutural no ouro, cuidado para inferir o crash
Para o ouro, a evidência mais forte do “comprador estrutural” em 2025 foram os ETFs, além de compras do setor oficial. Para o crash do fim de janeiro e início de fevereiro de 2026, a leitura mais segura é tratar o evento como choque de microestrutura, com alavancagem e margem, combinado com reprecificação de dólar e juros, mais do que como “morte” da tese estrutural.
USD vs BRL: o que muda quando o câmbio entra na conta
O investidor brasileiro quase sempre tem duas variáveis ao mesmo tempo: metal em USD e USD/BRL. Por isso, a mesma trajetória em dólar pode virar experiência diferente em real.
A conta é direta:
Preço em BRL = Preço em USD x USD/BRL
Para câmbio, o padrão de referência costuma ser a PTAX, publicada com fonte do Banco Central e disponibilizada em bases públicas como Ipeadata.
| Período | Ouro (USD) | Ouro (BRL) | Prata (USD) | Prata (BRL) |
|---|---|---|---|---|
| 2025 (02/01 → 31/12) | +62,90% | +44,37% | +144,82% | +116,97% |
| 2026 YTD (31/12 → 02/02) | +7,38% | +2,62% | +8,12% | +3,33% |
| Crash (29/01 pico → 02/02 fundo) | -17,23% | -16,23% | -36,85% | -36,09% |
Dois insights práticos para quem pensa portfólio:
- Quando o real fortalece, parte da alta do metal em USD pode ser reduzida na conversão para BRL.
- No crash, o câmbio pode amortecer ou piorar o drawdown em reais. No recorte de 29/01 a 02/02, a variação cambial amortecia marginalmente a queda em BRL, sem anular o evento.
Ouro vs Prata: semelhanças e diferenças
O erro comum é tratar prata como “ouro mais barato”. Os dados de 2025 e 2026 sugerem outra leitura: prata é um híbrido com beta maior.
O que elas compartilham:
- podem funcionar como proteção em certos regimes de estresse
- são sensíveis ao combo dólar e juros reais
O que separa as duas:
- a prata tem componente industrial muito mais relevante, com conexões diretas a eletrificação e solar
- essa mesma característica aumenta a chance de dupla penalidade em certos cenários: o monetário puxa para baixo e o industrial também sofre se o mercado precifica desaceleração
Esse é um dos motivos de a prata ter sido o palco do crash acima de 30% em poucos dias.
Como pensar metais no portfólio sem recomendação
Para quem vem de renda fixa, a utilidade de metais costuma ser melhor avaliada como ferramenta de desenho de portfólio, não como aposta direcional.
Metais podem cumprir papéis como:
- diversificação em choques em que correlações sobem
hedge parcial contra instabilidade macro, geopolítica e choques de confiança - proteção de cauda em alguns cenários, com a ressalva de que proteção não significa ausência de volatilidade
E costumam não ser bons substitutos de:
- instrumentos de geração de renda
uma carteira estruturada em juros reais e inflação - preservação mecânica no curto prazo, especialmente quando o investidor não tolera quedas fortes
Perguntas úteis para guiar a decisão, sem sugerir alocação:
- Qual risco exatamente eu quero cobrir: inflação surpresa, crise de crédito, estresse geopolítico, dólar, ou outro?
- Eu tolero ver essa posição cair 30% sem virar venda forçada por liquidez ou emocional?
- Eu entendo o veículo que estou usando e seus riscos: físico, ETF, BDR, fundo, derivativo?
- Eu sei como esse veículo se comporta em stress, inclusive quando bolsa e clearing ajustam margem?
Como acessar no Brasil: visão prática, factual e atual
A forma de acessar metais para o brasileiro muda bastante conforme o “meio” escolhido (bolsa local, BDR, conta global, derivativos, fundos). Abaixo, um mapa factual do que está listado e documentado.
Bolsa local (exposição em BRL, com variação do metal + câmbio)
Na B3, há ETFs ligados ao ouro, com metodologias distintas:
- GOLD11: ETF que busca acompanhar a variação do LBMA Gold Price (referência global administrada pela ICE).
- GLDX11: ETF que busca acompanhar índice de preço spot de ouro (Solactive Gold Spot Index).
- GOLB11: ETF “BTGP GOLB” (código GOLB11) listado em página oficial de fundos listados, ligado ao “Índice Futuro de Ouro B3” (estrutura baseada em contratos futuros + componente de caixa, conforme comunicação do gestor e dados de listagem).
Pontos de atenção típicos desses veículos incluem: liquidez, custo (taxas), diferença entre “spot” e “futuro” (quando aplicável), e como o fundo trata rolagem e caixa.
BDRs de ETFs (acesso a ETFs estrangeiros via B3)
Para prata, existe BDR de ETF lastreado em prata:
- BSLV39: BDR do ETF iShares Silver Trust, com documento de programa indicando ticker no exterior e ticker no Brasil.
Para ouro, a própria B3 já comunicou a existência de BDRs de ETFs de ouro e a evolução da demanda por “ativos ligados ao ouro” na bolsa, junto de ETFs locais.
Derivativos (alavancagem e margem: a via que amplifica movimentos)
Para quem opera derivativos, a B3 oferece “Futuro de Ouro com Liquidação Financeira”, descrito como contrato que dá exposição ao preço do ouro sem compra física, e com documentação que referencia o LBMA Gold Price PM na estrutura do contrato/opções.
Aqui, o ponto central não é “acessar o metal”, e sim entender o regime de risco: margem, ajustes diários, possibilidade de liquidação forçada e sensibilidade a mudanças de parâmetro por câmara/bolsa (como se viu no episódio de margem na CME lá fora).
Conta global e mercado externo
Conta global permite comprar ETFs e outros instrumentos diretamente no exterior (ouro, prata, miners, etc.), com custos, tributação e regras próprias. O ganho é amplitude de instrumentos; o custo é operar em outra jurisdição e lidar com conversão/IOF/spreads e regras fiscais aplicáveis.
Ouro/prata físicos
Exposição física existe, mas envolve temas que o “mundo ETF” evita: diferencial de compra/venda, pureza/certificação, custódia/seguro e liquidez em stress. Para certos investidores isso é parte do objetivo (risco sistêmico); para outros, é fricção desnecessária. O ponto factual é: os custos e riscos são diferentes dos financeiros.
Conclusão
Os dados de 2025 e início de 2026 sustentam duas leituras simultaneamente verdadeiras.
Primeiro: o rali foi “real” — em retorno e em fluxo. Em 2025, ouro e prata tiveram altas muito fortes (especialmente a prata), e o ouro em particular foi carregado por uma combinação rara de demanda: bancos centrais historicamente ativos e um recorde de entradas em ETFs, segundo a WGC. 6
Segundo: o crash também foi “real” — e mostrou onde está o risco escondido. O “>30%” aconteceu na prata spot em janela curta (pico 29/01 → fundo 02/02), enquanto o ouro caiu menos, mas ainda de forma agressiva para seus padrões. O gatilho foi uma reprecificação macro (dólar/juros) combinada com mecânica de margem e desalavancagem em derivativos. 2
Para o investidor brasileiro, a camada adicional é o câmbio: o dólar pode amplificar ou amortecer o resultado em reais e, em 2025, ajudou a explicar por que um rali em USD se converteu em retorno menor em BRL. 10
Pensar “faz sentido eu ter metais?” e “se eu já tenho, faz sentido manter?” depende menos de prever preço e mais de entender função no portfólio, tolerância a drawdown e o veículo escolhido — sobretudo quando o mercado alterna, tão rapidamente, entre proteção e alavancagem.
Fontes Consultadas
IBMA
Gold.org 2026
Gold.org 2025
CFTC.gov
CmeGroup
FRED DFII10
FED DTWEXBGS
IPEA Data
B3 GoldX11
B3 ETFs
BTG Pactual
Silver Institute
Iea.org
Reuters
Glossário resumido
COT (Commitments of Traders): relatório semanal da CFTC que mostra posições agregadas por categoria de participante (ex.: managed money, swap dealers).
Managed Money: categoria do COT que aproxima o posicionamento de gestores/speculators (fundos e traders profissionais), frequentemente sensível a momentum e stops.
Juros reais (real yields): juros descontados da inflação; no caso dos EUA, frequentemente aproximados por yields de TIPS.
TIPS: títulos do Tesouro dos EUA indexados à inflação; sua yield é usada como proxy de juro real.
Dólar trade-weighted (DTWEXBGS): índice do dólar contra cesta ampla de moedas (FRED), usado como medida de “força do dólar”.
PTAX (compra – média): taxa de câmbio de referência no Brasil, calculada pelo Banco Central com base em janelas de consulta; aqui usamos a série diária “compra – média”. 10
Margem (performance bond): garantia exigida para manter posição em futuros; aumento de margem pode forçar desalavancagem. 11
Spreading (no COT): posição de spread (ex.: comprado em um vencimento e vendido em outro), geralmente menos direcional do que posições “outright”.

Escrito por:
Equipe de Redação da Meelion.
Ela é formada pelos founders Dan Mark Printes e Eduardo Horvarth e também escritores convidados. Entre em contato aqui.














