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Carry trade no real: por que o Citi saiu e o que muda na sua renda fixa

Carry trade no real: por que o Citi saiu e o que muda na sua renda fixa

O carry trade no real sofreu um golpe relevante: o Citi removeu a moeda brasileira de sua cesta de operações em mercados emergentes. Para o investidor de renda fixa, não é hora de alarmismo, mas o movimento revela como o mercado global está lendo o Brasil neste momento.

Em 14 de agosto de 2026, o Citi anunciou que removeu o real de sua cesta de carry trade em mercados emergentes. No lugar, entrou o rand sul-africano. A decisão reflete uma leitura de risco político crescente às vésperas das eleições de outubro, e se soma a um movimento mais amplo: gestores como VanEck, Vontobel, Aberdeen e Fidelity já vinham reduzindo posições no Brasil.

Neste artigo, vamos explicar o que é carry trade, por que o real era uma das moedas favoritas dos investidores globais, o que levou o Citi a trocar de aposta e, principalmente, o que isso significa para quem investe em CDB, Tesouro Direto e debêntures. Vamos do começo.

O que o Citi fez e por que isso importa para o carry trade no real

O estrategista-chefe de câmbio do Citi para mercados emergentes, Dirk Willer, publicou um relatório em 14 de agosto de 2026 recomendando a substituição do real brasileiro pelo rand sul-africano na cesta de carry trade do banco. Em termos práticos, o Citi deixou de apostar que o real continuaria rendendo mais do que custaria mantê-lo em carteira.

A justificativa central foi o aumento do prêmio de risco nos ativos brasileiros conforme o primeiro turno das eleições presidenciais de outubro se aproxima. Mercados de previsão atribuem 67% de probabilidade de vitória ao atual presidente Lula e 27% a Flávio Bolsonaro. O Citi entende que esse cenário eleitoral eleva a volatilidade e reduz a atratividade relativa do real frente a outras moedas emergentes.

Esse detalhe importa. O Citi não está dizendo que o Brasil vai mal. Está dizendo que, dado o risco de curto prazo, existem moedas que oferecem retorno semelhante com menos incerteza. É uma decisão tática, não um veredito sobre a economia brasileira.

Mas o movimento não veio sozinho. A Bloomberg Línea reportou que gestores globais de peso já vinham reduzindo exposição à renda fixa local e ao real. A State Street alertou que o nível de proteção cambial (hedge) no real está baixo em comparação com ciclos eleitorais anteriores, o que deixa espaço para uma depreciação adicional da moeda caso o cenário político se deteriore.

Para quem investe em renda fixa no Brasil, a saída de capital estrangeiro tem consequências reais: pressiona o câmbio, pode alimentar inflação importada e mantém os prêmios dos títulos longos elevados. É exatamente isso que vamos desdobrar nas próximas seções.

O que é carry trade e por que o real era o favorito

Carry trade é uma estratégia usada por grandes investidores internacionais que funciona assim: o operador toma dinheiro emprestado em uma moeda com juros baixos (como o iene japonês ou o franco suíço) e aplica em uma moeda com juros altos (como o real brasileiro). O lucro vem da diferença entre as duas taxas, desde que a moeda de destino não se desvalorize o bastante para anular o ganho.

Imagine, de forma simplificada: um fundo toma emprestado em ienes a 0,5% ao ano e aplica em reais a 14% ao ano. A diferença bruta de 13,5 pontos percentuais é o “carrego”, o ganho potencial da operação. Se o real se mantém estável ou se valoriza frente ao iene, o lucro se concretiza. Se o real cai, o ganho diminui ou até vira prejuízo.

Por anos, o Brasil foi um destino privilegiado para o carry trade. O motivo é simples: a combinação de juros reais elevados (a Selic descontada da inflação) e uma moeda relativamente líquida tornava o real uma das apostas mais rentáveis entre os emergentes. Segundo dados compilados pela Bloomberg, o juro real brasileiro entre os maiores do mundo contribuiu diretamente para esse fluxo.

Até o primeiro semestre de 2026, o real acumulava alta de aproximadamente 6% frente ao dólar, um dos melhores desempenhos entre moedas emergentes. Para quem fazia carry trade, era o cenário ideal: juros altos e moeda se valorizando. Mas essa combinação começou a mudar.

Por que o carry trade no real começou a perder força

Dois fatores convergiram. Primeiro, a Selic entrou em trajetória de corte. Com a taxa básica de juros da economia brasileira em 14% ao ano (já no quarto corte consecutivo em agosto de 2026) e projeção do boletim Focus de 13,75% ao fim do ano, o diferencial de juros e câmbio entre o Brasil e os países de juro baixo vem diminuindo. Menos diferencial significa menos lucro para o carry.

Segundo, o risco percebido aumentou. Eleições geram incerteza sobre política fiscal, e incerteza é o inimigo número um do carry trade. Quando o risco sobe, o investidor estrangeiro exige mais retorno para ficar. Se não recebe, sai.

O peso colombiano, com retorno de carry próximo a 20% em 2026, já havia ultrapassado o real como moeda preferida dos operadores, segundo o Valor Econômico. A decisão do Citi de migrar para o rand é mais um capítulo dessa reorganização.

Por que o Citi trocou o real pelo rand sul-africano

A escolha pelo rand sul-africano não foi aleatória. A África do Sul oferece juros elevados (a taxa básica do South African Reserve Bank está em 7,5%) em um contexto político que, embora complexo, não enfrenta uma eleição iminente. O risco de evento de curto prazo é menor.

Além disso, o Citi revisou suas projeções para o dólar frente ao real. Antes, esperava a moeda americana a R$ 4,90 em três meses e R$ 5,00 em seis meses. Agora, projeta R$ 5,20 em três meses e R$ 5,10 em seis meses. É uma piora modesta, mas suficiente para tornar o carry trade no real menos atraente na ponta do câmbio.

O Citi também informou que vai esperar para tomar posição nos DIs (os contratos futuros de juros negociados na B3, a bolsa brasileira). Ou seja, o banco não está apenas saindo do câmbio: está em modo de cautela ampla em relação ao Brasil até que o cenário eleitoral fique mais claro.

Para contextualizar: o Itaú BBA projeta o dólar a R$ 5,30, e o Goldman Sachs adotou postura semelhante de cautela. Não é só o Citi. É uma leitura de mercado compartilhada por instituições de peso.

O efeito cascata: câmbio, inflação e juros

A saída de carry trade do real não acontece no vácuo. Ela desencadeia uma cadeia de efeitos que chega até a carteira do investidor pessoa física. Vamos entender cada elo.

Pressão no câmbio

Quando investidores estrangeiros desfazem posições em reais, precisam vender a moeda brasileira e comprar dólares. Esse fluxo de saída pressiona o câmbio. Com menos demanda por reais e mais demanda por dólares, a tendência é de desvalorização da moeda brasileira.

O boletim Focus de 17 de agosto projeta o dólar a R$ 5,20 no fim de 2026, estável pela nona semana consecutiva. Mas essa projeção pode ser revisada se o fluxo de saída se intensificar nos próximos meses. A State Street alerta que o nível de hedge (proteção cambial) no real está baixo frente a ciclos eleitorais anteriores, o que significa que muitos investidores estão expostos sem proteção.

Inflação importada

Dólar mais caro significa insumos importados mais caros: combustíveis, componentes eletrônicos, fertilizantes, trigo. Essa pressão se transmite para os preços ao consumidor. O IPCA, acompanhado de perto pelo mercado na B3, está projetado em 5,02% para 2026, acima da meta de 4,50% definida pelo Banco Central. Se o câmbio piorar, a inflação pode surpreender para cima.

Juros mais altos por mais tempo

Se a inflação sobe ou ameaça subir, o Banco Central tem menos espaço para continuar cortando a Selic. Hoje, o mercado espera a taxa básica em 13,75% no fim de 2026 e cortes graduais em 2027 (com projeção de 4,24% para o IPCA no ano que vem). Mas um dólar mais pressionado pode atrasar esse ciclo de cortes ou até revertê-lo.

Para ter dimensão: quando bancos globais rebaixam o Brasil ou mudam suas recomendações, os contratos de juros futuros reagem imediatamente. Os DIs longos sobem, os títulos prefixados perdem valor de mercado e os prêmios nos papéis atrelados à inflação se ampliam.

É exatamente esse mecanismo que está em jogo agora.

O que isso significa para o seu dinheiro

O investidor que tem dinheiro em renda fixa no Brasil precisa entender que o desmonte do carry trade afeta de maneiras diferentes cada tipo de título. Vamos traduzir.

Títulos pós-fixados (atrelados ao CDI ou à Selic)

A taxa básica definida pelo Banco Central está em 14% ao ano, e o CDI, referência dos investimentos em renda fixa, acompanha de perto a 13,90% ao ano. Se a Selic demorar mais para cair por causa da pressão cambial e inflacionária, os pós-fixados continuam pagando taxas elevadas por mais tempo. Isso é positivo para quem já está investido ou pretende investir agora.

Um CDB que paga 110% do CDI, por exemplo, está rendendo aproximadamente 15,29% ao ano bruto. Mesmo com o desconto do Imposto de Renda (que varia de 22,5% a 15% dependendo do prazo), o retorno líquido supera confortavelmente a inflação.

ProdutoTaxa bruta (a.a.)PrazoRetorno líquido estimado (a.a.)*
CDB 110% CDI15,29%1 ano12,47%
CDB 110% CDI15,29%2 anos12,99%
LCI 95% CDI13,21%1 ano13,21% (isenta de IR)
Tesouro Selic14,00%Até o vencimento11,90% (1 ano)

*Retorno líquido estimado com base na Selic de 14% a.a. e CDI de 13,90%. Sujeito a alterações conforme decisões do Copom.

Títulos atrelados à inflação (IPCA+)

Aqui o cenário é mais complexo. Os juros reais dos títulos IPCA+ (aqueles que pagam a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa) superaram 8% ao ano, um patamar que a gestora Adam Capital classificou como “claramente insustentável”. Segundo dados recentes, o Tesouro IPCA+ acima de 8% representa um prêmio historicamente elevado.

Para quem pode carregar o título até o vencimento, isso é uma oportunidade de travar um retorno real muito acima da média histórica. Mas atenção: no curto prazo, esses títulos sofrem com a marcação a mercado. Se os juros futuros continuarem subindo (por causa da saída de estrangeiros e do risco eleitoral), o preço dos IPCA+ longos cai, e quem vender antes do vencimento pode ter prejuízo.

A lógica é: quanto maior a duration (o prazo médio ponderado do título, que mede a sensibilidade às variações de juros), maior a oscilação de preço. Um Tesouro IPCA+ 2045 pode variar 10% ou mais em poucos meses.

Títulos prefixados

Os prefixados são os mais vulneráveis neste cenário. Se a expectativa de Selic subir ou demorar mais para cair, os títulos prefixados emitidos com taxas menores perdem valor no mercado secundário. Quem comprou um CDB prefixado a 12% quando o mercado esperava Selic de 11% pode ver o título marcado abaixo do valor de compra se a Selic se mantiver em 14%.

Neste momento, a cautela com prefixados é a postura dominante entre gestores. O próprio Citi disse que vai “esperar” para tomar posição nos DIs, sinalizando que não vê clareza suficiente para apostar na queda dos juros de curto prazo.

Carry trade no real: pós-fixado, IPCA+ ou prefixado?

Com o cenário de saída de carry trade e incerteza eleitoral, a pergunta que importa é: como posicionar a carteira de renda fixa?

Perfil conservador

Priorizar pós-fixados de curto a médio prazo (até 2 anos). CDBs de bancos sólidos pagando acima de 105% do CDI, LCIs e LCAs (investimentos isentos de Imposto de Renda ligados ao setor imobiliário e ao agronegócio) com taxas equivalentes, ou o Tesouro Selic para liquidez diária. A lógica é simples: com a Selic em 14% e possibilidade de demorar mais para cair, o retorno dos pós-fixados continua alto e o risco de marcação a mercado é mínimo.

Perfil moderado

Combinar a base em pós-fixados com uma fatia em IPCA+ de prazo intermediário (2029 a 2032). Com juros reais acima de 8%, travar uma parcela do patrimônio garante proteção contra inflação e um retorno real expressivo. Mas essa parcela precisa ser de dinheiro que você não vai precisar antes do vencimento. A Meelion reúne opções de títulos de diferentes emissores para você comparar taxas e prazos antes de tomar essa decisão.

Perfil arrojado

Pode considerar IPCA+ longos (2035, 2045) para travar juros reais historicamente altos, aceitando a volatilidade de marcação a mercado. Prefixados só fazem sentido se houver convicção de que a Selic vai cair mais rápido do que o mercado precifica, o que, neste momento, é uma aposta com risco relevante.

PerfilPós-fixados (CDI/Selic)IPCA+Prefixados
Conservador70-80%10-20%0-10%
Moderado50-60%25-35%5-15%
Arrojado30-40%35-45%15-25%

Sugestão de alocação considerando o cenário de agosto de 2026. Cada investidor deve avaliar seus objetivos, prazo e tolerância a risco.

Onde podem estar as oportunidades

Momentos de incerteza costumam abrir janelas para quem tem estratégia. Veja onde vale a pena olhar com atenção.

Debêntures incentivadas IPCA+: títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos, isentos de IR para pessoa física, que estão pagando spreads (diferença entre a taxa do título e a taxa de referência) elevados. Empresas de infraestrutura com bons ratings oferecem IPCA+ acima de 8% líquido. O risco de crédito exige análise, mas o retorno compensa para quem diversifica entre emissores.

CDBs de bancos médios: com a Selic alta, bancos médios precisam captar e oferecem taxas acima de 110% do CDI. Para valores até R$ 250 mil, o Fundo Garantidor de Créditos (o FGC, que protege até R$ 250 mil por CPF por instituição) cobre o risco. A Meelion permite comparar essas ofertas em tempo real, organizadas por taxa, prazo e emissor.

Tesouro IPCA+ de prazo intermediário: para quem quer proteção contra inflação sem a volatilidade extrema dos papéis longos. Vencimentos entre 2029 e 2032 oferecem boa relação entre retorno e risco de marcação a mercado.

Erros comuns do investidor em momentos como este

Quando grandes bancos mudam suas recomendações, é natural que o investidor pessoa física sinta urgência de agir. Mas algumas reações costumam ser prejudiciais.

Vender títulos IPCA+ ou prefixados no susto: quem vende antes do vencimento em um momento de juros altos realiza o prejuízo de marcação a mercado. Se o título vence em 2030 e você não precisa do dinheiro antes, a queda de preço é temporária. No vencimento, o Tesouro Nacional paga o valor integral mais os juros contratados.

Concentrar tudo em pós-fixados: sim, o momento favorece pós-fixados. Mas alocar 100% em CDI significa abrir mão de travar juros reais historicamente altos. O equilíbrio entre liquidez (pós-fixados) e retorno de longo prazo (IPCA+) é mais eficiente do que apostar tudo em uma direção.

Ignorar a diversificação entre emissores: o FGC protege até R$ 250 mil por CPF por instituição. Concentrar mais do que isso em um único banco médio por causa de uma taxa atraente é um risco desnecessário.

Tentar acertar o timing do câmbio: o dólar pode ir a R$ 5,40 ou voltar a R$ 4,90. Ninguém sabe com certeza. Para o investidor de renda fixa, o que importa é o impacto indireto do câmbio nos juros e na inflação, não tentar apostar na direção da moeda.

Confundir cautela com pessimismo: o Citi não disse que o Brasil é um mau investimento. Disse que, neste momento, o rand oferece melhor relação risco-retorno para carry trade. O real ainda acumula alta de 6% no ano. A economia brasileira segue com fundamentos que atraem capital.

O contexto macro: onde estamos em agosto de 2026

Para tomar decisões de investimento, vale situar o momento.

A Selic está em 14% ao ano, após o quarto corte consecutivo. O Banco Central vem reduzindo os juros de forma gradual, e o boletim Focus de 17 de agosto projeta a taxa em 13,75% ao fim de 2026. Para 2027, a expectativa é de continuidade dos cortes, com o IPCA projetado em 4,24%.

O IPCA de 2026 está projetado em 5,02%, acima da meta de 4,50%. Isso significa que a inflação segue como preocupação, e o Banco Central precisa calibrar o ritmo de cortes para não perder o controle dos preços.

O dólar está projetado em R$ 5,20 para o fim do ano. O Citi revisou suas projeções para R$ 5,20 em três meses e R$ 5,10 em seis meses (antes esperava R$ 4,90 e R$ 5,00). O Itaú BBA é um pouco mais pessimista, com projeção de R$ 5,30.

No Ibovespa, o cenário é de cautela: foram nove pregões consecutivos de queda, com o índice fechando a 166.934 pontos, a mínima de sete meses. Quatro grandes bancos perderam cerca de R$ 96,7 bilhões em valor de mercado em nove dias. Esse dado importa para a renda fixa porque mostra o grau de aversão a risco no mercado. Quando a bolsa cai forte, parte do capital migra para títulos de renda fixa, o que pode comprimir os spreads e reduzir as taxas oferecidas no futuro.

Olhando para o risco fiscal e renda fixa em 2027, gestores alertam que a combinação de eleição e política fiscal expansionista pode manter os prêmios de risco elevados por mais tempo.

O olhar da Meelion

Movimentos como o do Citi são parte do funcionamento normal dos mercados globais. Bancos e gestores reposicionam suas carteiras conforme o risco muda, e isso não significa que o Brasil deixou de ser um bom lugar para investir em renda fixa.

O que o investidor precisa fazer é separar o ruído da informação útil. O ruído é a manchete: “Citi foge do real”. A informação útil é o que está por trás: prêmios de risco elevados significam que os títulos estão pagando mais para quem compra agora. Juros reais acima de 8% em títulos do governo são uma anomalia histórica. A Selic em 14% torna o pós-fixado uma posição confortável para quem precisa de liquidez.

O momento pede estratégia, não reação. Avaliar o prazo de cada investimento, diversificar entre indexadores (CDI, IPCA, prefixado) e não ultrapassar os limites do FGC são atitudes que protegem o patrimônio independentemente do que os bancos estrangeiros decidam fazer com suas apostas de câmbio.

Perguntas frequentes sobre carry trade e renda fixa

O que é carry trade em termos simples?

É uma estratégia em que o investidor pega dinheiro emprestado em um país com juros baixos e aplica em um país com juros altos, lucrando com a diferença. Funciona bem quando a moeda do país com juros altos se mantém estável ou se valoriza.

A saída do Citi significa que o real vai desvalorizar?

Não necessariamente. O Citi fez uma decisão tática de curto prazo baseada no risco eleitoral. O real ainda acumula alta de 6% no ano. A desvalorização depende de muitos fatores além da decisão de um único banco.

Devo vender meus títulos de renda fixa agora?

Na maioria dos casos, não. Títulos pós-fixados continuam se beneficiando da Selic alta. Títulos IPCA+ e prefixados podem ter queda de preço na marcação a mercado, mas quem carrega até o vencimento recebe o retorno contratado integralmente.

O que é marcação a mercado?

É a atualização diária do preço de um título com base nas condições atuais de mercado. Se os juros sobem, o preço dos títulos já emitidos cai (porque novos títulos pagam mais). Se os juros caem, o preço sobe. Esse efeito só se realiza como ganho ou perda se o investidor vender antes do vencimento.

Juros reais de 8% são sustentáveis?

A maioria dos analistas considera esse patamar elevado demais para o longo prazo. A gestora Adam Capital chamou de “claramente insustentável”. Na prática, isso pode representar uma oportunidade de compra para quem consegue travar esse retorno por muitos anos.

O que é o FGC e como ele me protege?

O Fundo Garantidor de Créditos é um mecanismo que protege depósitos e investimentos em CDBs, LCIs e LCAs até R$ 250 mil por CPF por instituição financeira. Se o banco emissor quebrar, o FGC devolve o dinheiro até esse limite.

LCI e LCA são melhores que CDB neste momento?

Depende da taxa oferecida. LCIs e LCAs são isentas de Imposto de Renda para pessoa física, o que pode tornar uma taxa de 95% do CDI em uma LCI equivalente a um CDB de 112% do CDI. Sempre compare o retorno líquido, considerando a alíquota de IR do CDB conforme o prazo.

Debêntures são seguras?

Debêntures não têm cobertura do FGC. O risco é de crédito: se a empresa emissora não pagar, o investidor pode perder parte ou todo o investimento. Debêntures de empresas com bons ratings e de setores regulados (como infraestrutura) tendem a ser mais seguras, mas sempre há risco. A compensação vem na forma de taxas mais altas.

Conclusão

A decisão do Citi de retirar o real de sua cesta de carry trade é um sinal de cautela, não de crise. Reflete o aumento do prêmio de risco pré-eleitoral e a busca por alternativas com melhor relação risco-retorno entre moedas emergentes.

Para o investidor de renda fixa brasileiro, o cenário atual oferece mais oportunidades do que ameaças, desde que a estratégia esteja calibrada. Pós-fixados pagam bem enquanto a Selic estiver alta. IPCA+ com juros reais acima de 8% representam uma janela histórica para quem pode carregar até o vencimento. Prefixados exigem convicção. E a diversificação entre emissores e indexadores continua sendo a melhor proteção contra surpresas.

O próximo semestre será de volatilidade. Quem tiver clareza sobre seus prazos e objetivos vai atravessar esse período com o patrimônio não apenas protegido, mas potencialmente fortalecido.

Este artigo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento. Antes de aplicar, avalie seu perfil de risco e consulte um profissional certificado.

Glossário

  • Carry trade: estratégia financeira em que o investidor toma emprestado em uma moeda com juros baixos e aplica em outra com juros altos, lucrando com a diferença entre as taxas.
  • Selic: taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central a cada reunião do Copom. Influencia diretamente o rendimento de investimentos em renda fixa.
  • CDI: Certificado de Depósito Interbancário. É a taxa de referência dos investimentos em renda fixa, muito próxima à Selic.
  • IPCA: Índice de Preços ao Consumidor Amplo. É o indicador oficial de inflação no Brasil, medindo a alta geral dos preços.
  • CDB: Certificado de Depósito Bancário. Um empréstimo que o investidor faz ao banco em troca de uma remuneração previamente definida.
  • LCI e LCA: Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio. Investimentos de renda fixa isentos de Imposto de Renda para pessoa física.
  • Debêntures: títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Podem ser incentivadas (isentas de IR) ou comuns.
  • FGC: Fundo Garantidor de Créditos. Protege depósitos e investimentos em CDB, LCI e LCA até R$ 250 mil por CPF por instituição financeira.
  • Duration: prazo médio ponderado de um título. Quanto maior a duration, mais sensível o título é às variações de juros.
  • Spread: diferença entre duas taxas. No contexto de crédito, é a diferença entre a taxa do título e a taxa de referência do mercado.
  • Marcação a mercado: atualização diária do preço de um título com base nas condições atuais do mercado. Pode gerar ganhos ou perdas para quem vende antes do vencimento.
  • Hedge: proteção cambial ou financeira contra variações adversas de preço, taxa ou câmbio.
  • DI: contrato futuro de juros negociado na B3. Reflete as expectativas do mercado para a trajetória da Selic.
  • Prêmio de risco: retorno adicional que o investidor exige para aplicar em um ativo com maior incerteza ou risco.
  • Juros reais: taxa de juros descontada da inflação. Indica o ganho efetivo do investidor em termos de poder de compra.
  • Rating: nota de classificação de risco atribuída por agências especializadas a empresas ou países, indicando a capacidade de pagamento.

Fontes Consultadas

Dan Mark Printes

Dan Printes é fundador da Meelion e empreendedor na área de tecnologia. Atua com inteligência artificial, produtos digitais e investimentos, com especial interesse em renda fixa e na aplicação de tecnologia para tornar decisões financeiras mais simples e inteligentes. Neste espaço, compartilha insights sobre investimentos, economia, renda fixa e outros temas relacionados ao mercado financeiro.

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