Juros reais Brasil EUA NTN-B a 4 p.p.: ainda vale travar IPCA+?
Quando o diferencial de juros reais Brasil EUA NTN-B encolhe, a pergunta muda de tom. Deixa de ser “a taxa da NTN-B parece alta?” e passa a ser: alto em relação a quê? Em outubro de 2026, esse “quê” voltou ao centro da conversa da renda fixa.
Na semana de 12 a 16 de outubro, o que chamou atenção no mercado não foi só a reabertura parcial das taxas do Tesouro IPCA+. Foi o colchão relativo frente aos TIPS americanos (títulos do Tesouro dos EUA indexados à inflação de lá). Segundo a XP, o diferencial de juros reais de 5 anos entre Brasil e EUA caiu de cerca de 6 pontos percentuais no início de 2026 para cerca de 4 p.p., um dos menores níveis desde 2024. Em paralelo, a curva real doméstica voltou a abrir: o prêmio absoluto continua elevado no histórico recente, mas o espaço para novas compressões no mesmo ritmo do rali pós-primeiro turno ficou mais estreito.
Neste artigo, vamos traduzir o que esse diferencial significa para quem investe em reais: ainda faz sentido travar miolo e longo do IPCA+, ou o CDI/Selic vira o default até o segundo turno de 25 de outubro? Você vai sair com um framework de decisão, sem tip eleitoral e sem confundir juro real com juro nominal ou com a conta de Treasury em dólares.
Juros reais Brasil EUA NTN-B: o diferencial caiu a 4 p.p.
Traduzindo sem jargão de mesa: juro real é a remuneração acima da inflação. No Brasil, o instrumento clássico dessa conversa é a NTN-B (o Tesouro IPCA+ no Tesouro Direto), que paga uma taxa fixa mais a variação do IPCA acumulado em 12 meses, o índice que mede a alta geral dos preços. Nos Estados Unidos, o paralelo mais próximo são os TIPS, indexados ao CPI americano.
O diferencial de 5 anos Brasil versus EUA é, em termos simples, quanto o mercado pede a mais, em juro real, para carregar risco Brasil em relação ao risco americano no mesmo horizonte. Quando esse número vai de cerca de 6 p.p. para cerca de 4 p.p., duas coisas acontecem ao mesmo tempo: o Brasil ficou relativamente menos “barato” frente aos EUA, e o investidor estrangeiro (e o alocador local que olha o relativo) passa a enxergar menos margem para comprimir ainda mais a taxa real doméstica só por “catch-up” de prêmio.
Esse detalhe importa. A XP descreve o movimento como um descolamento: as TIPS americanas avançaram (inflação e atividade dos EUA mais persistentes), enquanto os juros reais das NTN-Bs tinham recuado nos meses anteriores com a melhora das expectativas fiscais domésticas e o pano de fundo eleitoral. O resultado não é que o IPCA+ “ficou ruim”. É que o prêmio relativo encolheu, e isso tende a limitar novas quedas expressivas das taxas reais brasileiras no mesmo ritmo visto logo após o primeiro turno.
Vamos do começo. No início de outubro, o mercado celebrava compressões fortes nas NTN-Bs. A âncora histórica do rali pós-primeiro turno mostra o tamanho do movimento: a NTN-B 2029 caiu de cerca de 7,46% para 6,96%; a 2035, de 7,65% para 7,04%; a 2050, de 7,27% para 6,76% (dados XP via Seu Dinheiro, referência de 5 de outubro). Depois veio a reabertura da semana 12-16/10. O ponto deste artigo não é recontar o rali. É entender por que, com o diferencial em 4 p.p., esperar a repetição daquele tipo de compressão vira uma aposta mais frágil.
Em 18 de outubro de 2026, os indicadores de mercado ajudam a ancorar o “agora”: taxa Selic hoje em 13,75%, CDI hoje (DI) em 13,65%, IPCA em 12 meses em 4,58% e dólar hoje em R$ 5,06. Em outras palavras: o pós-fixado ainda paga muito em termos nominais, enquanto o IPCA+ intermediário e longo oferece um juro real absoluto alto, mas com menos “espaço relativo” frente aos TIPS do que tinha no começo do ano.
NTN-B vs TIPS: juro real alto, colchão relativo mais fino
NTN-B e TIPS não são o mesmo produto. Ambos são títulos de governo indexados à inflação, mas a inflação de referência é diferente, a moeda é diferente e o investidor brasileiro, na prática, não “troca” NTN-B por TIPS com um clique. Ainda assim, o mercado global compara juros reais. Quando o prêmio Brasil-EUA encolhe, o preço de equilíbrio das NTN-Bs passa a depender menos de “ainda estamos caros frente aos americanos” e mais de narrativa fiscal, política e de fluxo doméstico.
É aqui que muita gente confunde três conversas distintas:
- Juro real (NTN-B × TIPS): proteção inflacionária em cada país, comparada em pontos percentuais.
- Juro nominal (DI × Treasury nominal): taxas prefixadas ou de curto prazo sem ajuste de inflação no cupom.
- Treasury em dólares versus CDI em reais: entra câmbio, IOF e a conta de retorno em reais, tema já detalhado ao comparar Treasury nominal em dólares com o CDI.
Este artigo fica na primeira conversa. Se no post sobre Treasury×CDI já apareceu um spread real de 10 anos NTN-B versus TIPS abaixo de 4 p.p. (menor desde meados de 2024), lembre: prazo e série são outros. Aqui, a âncora da XP é o diferencial de 5 anos, caindo de cerca de 6 p.p. para cerca de 4 p.p. em 2026. Misturar os dois números sem dizer o horizonte é o atalho mais comum para conclusão errada.
O olhar prático: um Tesouro IPCA+ pagando perto de 6,8% a 6,9% ao ano acima do IPCA ainda é um prêmio absoluto alto no histórico recente brasileiro. Eleva Invest, citada pelo E-Investidor, chegou a falar em um cenário benigno de fiscal em que a taxa real poderia, ao longo de um novo governo, recuar em direção a cerca de 5,5%. Só que o mesmo raciocínio esbarra no “piso internacional”: se os juros reais lá fora sobem ou se mantêm altos, o Brasil não comprime o prêmio doméstico indefinidamente sem que o diferencial relativo fique ainda mais estreito.
Em português de carteira: você ainda pode achar o cupom absoluto atrativo para carregar até o vencimento. O que diminuiu foi a probabilidade de um novo rali de preço só porque o Brasil “estava caro” frente aos TIPS. Quem compra hoje esperando outra valorização de dois dígitos no ultralongo está apostando em narrativa doméstica, não em catch-up relativo — e é exatamente aí que o mapa dos juros reais Brasil EUA NTN-B muda a assimetria da decisão.
Os números da semana: B29, B35, B50, DI e Treasuries lado a lado
Na semana de 12 a 16 de outubro de 2026, a XP registrou a reabertura parcial da curva real. No fechamento semanal:
| Título (âncora secundário XP) | Taxa no fechamento | Taxa anterior (referência XP) | Variação aproximada |
|---|---|---|---|
| NTN-B 2029 (B29) | 6,86% | 6,66% | +20 bps |
| NTN-B 2035 (B35) | 6,93% | 6,72% | +21 bps |
| NTN-B 2050 (B50) | 6,85% | 6,62% | +23 bps |
Em paralelo, os DI futuros abriram de forma desigual. O miolo e o longo reagiram bem mais que o curto: jan/27 a 13,49% (+5 bps), jan/29 a 12,69% (+47 bps) e jan/31 a 12,72% (+48 bps). Essa assimetria conta uma história: o mercado não está só “vendendo Brasil”. Está precificando mais incerteza no meio da curva, exatamente onde mora a decisão entre carregar pós-fixado e travar IPCA+ intermediário. Quem acompanhou a abertura dos DIs no miolo da curva já viu esse tipo de movimento na tela.
Do lado americano, a semana fechou com Treasuries nominais em queda de yield no fechamento, apesar de CPI, PPI e varejo acima do esperado: T-note de 2 anos a 4,71% (-8 bps), 10 anos a 5,08% (-16 bps) e T-bond de 30 anos a 5,43% (-17 bps), segundo a XP. O tom do Fed (com menção a Kevin Warsh no relatório) reduziu apostas de alta já em outubro. Ou seja: a narrativa americana é complexa. Inflação e atividade ainda pedem cautela, mas o fechamento da semana não foi um “sell-off” linear de Treasuries nominais.
No Tesouro Direto, a execução é outra tela. Em 15/10/2026, o InfoMoney registrou intradía com IPCA+ 2032 chegando a IPCA+ 6,80%, IPCA+ 2040 a 6,73% e IPCA+ 2050 a 6,74%: acima dos fechamentos pós-primeiro turno, ainda abaixo do pré-eleição. A última atualização oficial de preços e taxas no site do Tesouro Direto, citada na pesquisa deste material, foi em 16/10/2026 às 18h, com mercado tipicamente entre 9h30 e 18h. Taxas XP de B29/B35/B50 são âncora de cenário e secundário; a ordem do investidor pessoa física se confirma na tela da corretora ou do Tesouro no dia. Para o contexto de mercado de títulos públicos, a referência da ANBIMA também ajuda a acompanhar a curva sem misturar tela de corretora com manchete.
Para quem quer o detalhe tático da B29 isolada, vale a leitura da abertura da B29 a 6,86% na semana 12-16/10. Aqui o foco é outro: esses 6,8% a 6,9% existem num mundo em que o diferencial BR×EUA de 5 anos já não oferece o mesmo colchão de 6 p.p.
O que isso significa para o seu dinheiro
Imagine R$ 100 mil. No CDI perto de 13,65% ao ano, o dinheiro segue a taxa básica (Selic) de perto e mantém liquidez. No Tesouro IPCA+ intermediário a cerca de 6,9% real, você trava um cupom acima da inflação oficial, mas aceita marcação a mercado: se as taxas reais subirem de novo, o preço do título cai no curto prazo, mesmo que o cupom contratado continue intacto até o vencimento.
Com o diferencial em 4 p.p., a assimetria muda. No começo de 2026, com cerca de 6 p.p. de prêmio relativo, havia mais espaço conceitual para o mercado “fechar o gap” comprimindo NTN-Bs. Agora, parte desse gap já foi. Isso não torna o IPCA+ um mau negócio. Torna a expectativa de novo rali de preço menos automática. Quem precisa do dinheiro em 12 a 24 meses continua, em geral, melhor servido pelo pós-fixado. Quem tem horizonte de 5 a 10 anos e quer blindar poder de compra ainda encontra prêmio absoluto relevante, desde que aceite volatilidade de preço e não trate a compra como trade de curto prazo.
Um exemplo numérico simples, só para dimensão (sem projetar preço de mercado): se a inflação anual ficar perto de 4,5% a 5% e você carrega IPCA+ 6,9%, o retorno nominal aproximado fica na casa de 11,5% a 12% ao ano enquanto a regra se mantém. Não é mágica: é aritmética de juro real mais inflação. O CDI, enquanto a Selic permanecer elevada, pode competir ou até superar esse nominal no curto prazo. A escolha deixa de ser “quem rende mais na planilha deste mês” e passa a ser “qual risco de reinvestimento e de inflação você quer carregar até 2029, 2035 ou 2050”.
Travar IPCA+ ou ficar no CDI? Três cenários até o segundo turno
O segundo turno de 25 de outubro entra aqui só como evento de preço e volatilidade, não como aposta em candidato. Até lá, e logo depois, três cenários ajudam a organizar a cabeça.
Cenário 1: compressão limitada das taxas reais
É o cenário implícito na tese do “limitador” relativo. As taxas das NTN-Bs podem até ceder um pouco se o fluxo doméstico for favorável, mas a compressão não replica o ritmo de 5 e 6 de outubro. O diferencial BR×EUA em torno de 4 p.p. e TIPS mais altos funcionam como freio. Nesse mundo, quem trava miolo (vencimentos intermediários perto de 2029-2035) a cerca de 6,8%-6,9% real está comprando cupom, não um ticket de valorização garantida. Quem fica no CDI preserva optionalidade: pode entrar depois se a reabertura devolver taxa, sem precisar acertar o timing do rali.
Para carteiras que já têm IPCA+ longo e embolsaram o rali do IPCA+ 2050 pós-1º turno, esse cenário favorece disciplina: reduzir concentração no ultralongo (duration alta, ou seja, prazo médio ponderado do título mais longo e mais sensível a juros) e redistribuir entre miolo e liquidez, em vez de dobrar a aposta esperando outro salto de preço.
Cenário 2: reabertura fiscal e taxas reais de volta para cima
Se o mercado voltar a precificar deterioração fiscal ou risco político de forma mais agressiva, as NTN-Bs podem reabrir além da correção da semana 12-16/10. Aí o investidor que entrou “all-in” no ultralongo sente a marcação a mercado. O cupom contratado não some, mas o extrato de curto prazo dói. Nesse cenário, a fatia líquida em CDI/Selic deixa de ser “dinheiro parado” e vira munição: é com ela que se compra taxa melhor, se fizer sentido no objetivo da carteira.
O DI já abriu cerca de 47-48 bps no jan/29 e jan/31 na mesma semana. Parte dessa reprecificação já aconteceu no prefixado implícito. Quem pensa em prefixados longos também precisa olhar como o juro americano puxa a curva local. Esse elo entre juros externos e a ponta longa doméstica já foi discutido ao explicar como o juro americano puxa o prefixado e o IPCA+ longo.
Cenário 3: carry no pós-fixado enquanto a Selic segue alta
Com Selic em 13,75% e CDI em 13,65% (18/10/2026), o carry do pós-fixado continua competitivo no curto prazo. As projeções de mercado, alinhadas ao olhar do Boletim Focus, apontam IPCA de 5,22% em 2026, 4,30% em 2027 e convergência gradual para 3,50% em 2029-30, com Selic migrando de 13,25% em 2026 para 12,00% em 2027, 10,50% em 2028 e 10,00% em 2029-30. Se esse caminho se confirmar, o CDI vai perdendo atratividade nominal ao longo do tempo, e o IPCA+ travado hoje ganha valor como seguro contra a queda futura da taxa básica.
O risco do cenário 3 é o oposto do medo popular: não é “perder o IPCA+”, é travar cedo demais uma fatia grande demais e descobrir, depois de uma reabertura, que dava para ter comprado o mesmo prazo com mais 20 a 40 bps. Por isso a entrada gradual faz mais sentido do que a decisão binária “tudo ou nada”.
| Cenário | O que acontece com IPCA+ | Papel do CDI/Selic | Leitura prática |
|---|---|---|---|
| Compressão limitada | Taxas cedem pouco; cupom importa mais que mark-to-market | Optionalidade e reserva de liquidez | Preferir miolo; evitar ultralongo concentrado |
| Reabertura fiscal | Preços caem no curto prazo; taxas melhores para quem tem caixa | Munição para comprar taxa | Não vender pânico se o prazo do objetivo for longo |
| Carry no pós-fixado | IPCA+ compete no longo prazo quando a Selic cair | Rende bem enquanto a taxa básica segue alta | Escalonar entradas; não zerar liquidez antes de 25/10 |
Onde podem estar as oportunidades
Com o prêmio relativo mais fino, a oportunidade deixa de ser “comprar qualquer NTN-B porque o Brasil paga 6 p.p. a mais que os EUA”. Passa a ser mais seletiva:
- Miolo (perto de 2029-2035): melhor equilíbrio entre juro real absoluto perto de 6,9% e duration menor que a do 2050.
- Pós-fixado (CDI/Tesouro Selic e equivalentes): fatia de liquidez e de espera até o segundo turno e a leitura do fluxo pós-25/10.
- Ultralongo (2050): só para quem realmente tem horizonte longo e tolera oscilação grande de preço; o diferencial a 4 p.p. não elimina o prêmio absoluto, mas reduz a tese de compressão automática.
Antes de decidir tamanho e prazo, vale comparar as taxas disponíveis no dia da ordem. A Meelion reúne opções de renda fixa de diferentes emissores para você simular com números atualizados, sem misturar a tela do Tesouro Direto com a do crédito privado.
O que fazer até 25/10: checklist de tamanho, prazo e tela
Até o segundo turno, o objetivo não é acertar o candidato. É não deixar a carteira refém de um único cenário de taxa. Um checklist simples ajuda.
- Separe horizonte e produto. Dinheiro para 0-24 meses: priorize liquidez e CDI/Selic. Dinheiro para 5+ anos com objetivo de preservar poder de compra: IPCA+ intermediário entra na conversa. Dinheiro “para sempre” no ultralongo só se a duration for consciente.
- Defina o tamanho máximo da fatia em IPCA+ intermediário/longo. Com o colchão relativo menor, faz sentido que essa fatia seja construída em etapas (por exemplo, 30% agora, 30% após o evento de volatilidade, 40% se a taxa reabrir), e não de uma vez só.
- Confirme a taxa na tela, não na manchete. B29 a 6,86% na XP é referência de semana. A ordem sai pelo preço e pela taxa do Tesouro Direto ou da corretora no horário de pregão.
- Não misture TIPS com Treasury nominal. Se a sua dúvida for câmbio e título americano em dólares, volte ao framework Treasury×CDI. Se a dúvida for juro real em reais, fique em NTN-B × IPCA.
- Olhe o DI do miolo. Aberturas de 40-50 bps em jan/29 e jan/31 avisam que o mercado está reprecificando o meio da curva. Isso afeta tanto prefixados quanto a marcação do IPCA+.
- Evite transformar lucro marcado a mercado em narrativa permanente. Quem ganhou com a queda das taxas no ultralongo no começo de outubro já realizou parte do movimento. O diferencial a 4 p.p. é um lembrete de que a segunda perna do rali não é automática.
Como proteger seu patrimônio neste momento
Proteção, aqui, não é sinônimo de “ficar só em liquidez para sempre”. É combinar três camadas:
- Liquidez: reserva e objetivos curtos no pós-fixado, para não ser forçado a vender IPCA+ no pior preço.
- Inflação: uma fatia em IPCA+ com prazo alinhado ao objetivo, comprada com taxa consciente (hoje, miolo perto de 6,8%-6,9% real).
- Optionalidade: caixa para aproveitar reabertura, se ela vier, sem precisar liquidar outros ativos bons só por volatilidade de manchete.
O diferencial BR×EUA a 4 p.p. entra como freio de expectativa, não como alarme. Ele diz: o Brasil já estreitou o prêmio relativo; daqui para frente, o preço das NTN-Bs depende mais do fiscal e do fluxo domésticos do que de um catch-up óbvio frente aos TIPS.
O olhar da Meelion
A leitura editorial é sóbria. Ainda há prêmio absoluto para travar IPCA+ no miolo perto de 6,8%-6,9% real, especialmente para quem pensa em carregar. O que mudou é a assimetria: o colchão contra os TIPS encolheu, então esperar nova compressão no estilo pós-primeiro turno é uma hipótese, não o caso-base. Prefira entrada gradual, vencimentos intermediários e uma fatia líquida em CDI/Selic até haver mais clareza de preço depois de 25 de outubro. O ultralongo continua existindo para quem tem horizonte e estômago; só não deve ser o único instrumento da tese “Brasil ainda paga muito mais que os EUA”.
Perguntas frequentes sobre juros reais Brasil EUA NTN-B
O que significa diferencial de juros reais de 5 anos a 4 p.p.?
É a diferença aproximada entre o juro real de 5 anos precificado no Brasil (via NTN-Bs) e o juro real equivalente nos EUA (via TIPS). Cair de cerca de 6 p.p. para cerca de 4 p.p. significa que o prêmio relativo do Brasil encolheu, limitando novas compressões automáticas das taxas reais domésticas.
IPCA+ a 6,9% ainda vale a pena com o diferencial menor?
Como cupom absoluto para carregar até o vencimento, continua atrativo no histórico recente. Como aposta de novo rali de preço, ficou mais frágil, porque parte do catch-up relativo frente aos TIPS já ocorreu. A resposta depende do seu prazo e da fatia que você já tem em IPCA+.
Qual a diferença entre NTN-B e TIPS?
Ambos são títulos públicos indexados à inflação. A NTN-B (Tesouro IPCA+) usa o IPCA brasileiro e é denominada em reais. Os TIPS usam o CPI americano e são denominados em dólares. Comparar as taxas ajuda a medir prêmio relativo; não significa que sejam substitutos perfeitos na carteira do investidor pessoa física no Brasil.
Devo sair do CDI e ir tudo para IPCA+ antes do segundo turno?
Em geral, não. Com Selic em 13,75% e CDI em 13,65% (18/10/2026), o pós-fixado ainda cumpre papel de liquidez e optionalidade. Escalonar entradas no IPCA+ intermediário costuma ser mais coerente do que concentrar a decisão num único dia de volatilidade eleitoral.
Por que o ultralongo (2050) oscila tanto?
Porque a duration é maior: o prazo médio ponderado do título é longo, então pequenas mudanças na taxa real movem o preço com mais força. No rali pós-primeiro turno, isso trabalhou a favor de quem já estava posicionado. Em reaberturas, trabalha contra quem precisa marcar a mercado no curto prazo.
Juro real alto garante retorno alto no extrato deste ano?
Não. Juro real contratado garante a regra até o vencimento (ignorando crédito soberano e regras do título). No caminho, a marcação a mercado pode gerar lucro ou prejuízo contabilizado se você vender antes. Confundir cupom com resultado de curto prazo é um dos erros mais comuns em Tesouro IPCA+.
Conclusão
O diferencial de juros reais Brasil EUA NTN-B a cerca de 4 p.p. não cancela o prêmio absoluto do Tesouro IPCA+ perto de 6,8%-6,9%. Ele muda o mapa: o colchão relativo frente aos TIPS ficou mais fino, e a tese de compressão fácil perdeu força. Até o segundo turno, e logo depois, faz mais sentido combinar miolo com entrada gradual e liquidez em CDI/Selic do que tratar o IPCA+ como trade único de timing.
Invista com consciência de prazo, confirme a taxa na tela no dia da ordem e use o diferencial BR×EUA como freio de expectativa, não como manchete de medo. Este artigo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento. Dados de mercado mudam com frequência; confirme taxas, disponibilidade e condições diretamente na instituição financeira antes de investir.
Glossário
- Juro real: remuneração de um investimento acima da inflação do período.
- Diferencial de juros reais BR×EUA: diferença, em pontos percentuais, entre o juro real precificado no Brasil e o dos Estados Unidos em um horizonte comparável (aqui, 5 anos na leitura da XP).
- NTN-B / Tesouro IPCA+: título público federal que paga uma taxa prefixada mais a variação do IPCA.
- TIPS: Treasury Inflation-Protected Securities, títulos do Tesouro americano indexados ao CPI.
- IPCA: índice oficial que mede a alta geral dos preços no Brasil.
- Selic: taxa básica de juros da economia brasileira; influencia empréstimos, financiamentos e a renda fixa pós-fixada.
- CDI / DI: taxa de referência dos investimentos em renda fixa, próxima à Selic.
- Tesouro Direto: plataforma de compra de títulos do governo federal pelo investidor pessoa física.
- Duration: prazo médio ponderado de um título; quanto maior, mais sensível o preço a variações de juros.
- Basis point (bps): centésimo de ponto percentual; 100 bps equivalem a 1 ponto percentual.
- Marcação a mercado: atualização diária do preço do título conforme as taxas vigentes, mesmo que você não venda.
- Carry: retorno obtido ao carregar um ativo ao longo do tempo, tipicamente associado ao pós-fixado enquanto a taxa básica permanece elevada.
- Treasury (nominal): título do Tesouro americano com juro prefixado, sem indexação à inflação no cupom.
Fontes Consultadas
- XP Investimentos: A Semana na Renda Fixa (12/10/2026 a 16/10/2026): https://conteudos.xpi.com.br/renda-fixa/relatorios/a-semana-na-renda-fixa-12-10-26-a-16-10-26/
- InfoMoney: Tesouro Direto abertura e fechamento (15/10/2026): https://www.infomoney.com.br/onde-investir/tesouro-direto-abertura-fechamento-15102026/
- Seu Dinheiro: Tesouro IPCA+ pós-1º turno (taxas e valorizações): https://www.seudinheiro.com/2026/renda-fixa/tesouro-direto-tesouro-ipca-8-nao-existe-mais-e-quem-comprou-ja-lucra-ate-25-veja-quanto-os-titulos-pagam-agora-mlim/
- E-Investidor / Estadão: Tesouro Selic, IPCA ou prefixado no segundo turno: https://www.estadao.com.br/einvestidor/onde-investir/tesouro-selic-ipca-ou-prefixado-onde-investir-de-olho-no-segundo-turno-das-eleicoes/
- InfoMoney: Guia Treasuries / Tesouro americano: https://www.infomoney.com.br/guias/treasuries-tesouro-americano/
- Tesouro Direto: Preços e taxas: https://www.tesourodireto.com.br/titulos/precos-e-taxas.htm
- Tesouro Direto: Histórico de preços e taxas: https://www.tesourodireto.com.br/produtos/dados-sobre-titulos/historico-de-precos-e-taxas
- Meelion: Indicadores financeiros: https://www.meelion.com/indicadores-financeiros/
- Meelion: Boletim Focus: https://www.meelion.com/boletim-focus/
- ANBIMA: Referência de mercado de títulos públicos: https://www.anbima.com.br/

Dan Printes é fundador da Meelion e empreendedor na área de tecnologia. Atua com inteligência artificial, produtos digitais e investimentos, com especial interesse em renda fixa e na aplicação de tecnologia para tornar decisões financeiras mais simples e inteligentes. Neste espaço, compartilha insights sobre investimentos, economia, renda fixa e outros temas relacionados ao mercado financeiro.














