Tesouro encurta emissões prefixados: o que muda no IPCA+

Há um desencontro curioso no mercado de títulos públicos neste julho de 2026. No aplicativo do Tesouro Direto, títulos do governo indexados à inflação (o índice que mede a alta geral dos preços) mostram juros reais em máximas. No leilão institucional, o mesmo papel quase desapareceu da mesa.

Quando o Tesouro encurta emissões prefixados e reduz a oferta de NTN-B, o investidor pessoa física vê uma taxa atrativa na tela e o governo, do outro lado do balcão, trata esse juro como caro demais para validar em volume. São dois mercados olhando o mesmo título com lógicas diferentes.

O que o mix de emissões de julho está dizendo, por que a NTN-B “sumiu” do leilão mesmo com IPCA+ em recorde, o que muda no risco da dívida — e como traduzir isso em decisão de carteira: liquidez, médio prazo e horizonte longo.

O que o leilão de julho está dizendo sobre a dívida

Vamos do começo. O leilão do Tesouro Nacional é o mercado primário: bancos, fundos, previdências e grandes instituições compram títulos novos emitidos pelo governo. O Tesouro Direto é outra porta: a prateleira da pessoa física, com nomes comerciais (Tesouro Selic, Prefixado, IPCA+) que espelham os mesmos papéis, mas com dinâmica de preço própria.

Até 23 de julho de 2026, o Tesouro emitiu R$ 130,8 bilhões no mês. Desse total, apenas 1,64% saiu em NTN-B, o título indexado ao IPCA com juro real. É a menor fatia mensal desde 2006, segundo reportagem do NeoFeed com base nos dados de emissão.

O restante do mix conta a estratégia em uma frase: o governo está vendendo o que encontra comprador e evitando o que ficou caro demais. A composição até aquela data ficou assim:

Título (nome técnico)Nome no Tesouro DiretoFatia das emissões (até 23/07)
LFTTesouro Selic58,8%
LTNPrefixado (sem cupom)31,7%
NTN-FPrefixado com juros semestrais7,8%
NTN-BTesouro IPCA+1,64%

Esse detalhe importa. Quase seis em cada dez reais novos da dívida doméstica no período vieram atrelados à Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. Prefixados entraram com força, mas no curto prazo. E o IPCA+, que costuma ser o “seguro” estrutural da dívida contra a inflação, ficou residual.

Não é um episódio isolado de um leilão ruim. Em junho, com leilão de NTN-B cancelado, a fatia do título já havia caído a 3,97% (R$ 5,97 bilhões de R$ 150,26 bilhões emitidos). No acumulado do ano até 23 de julho, a NTN-B somava R$ 91,13 bilhões, ou 9,36% do total. Só janeiro a julho de 2018 (8,37%) e o mesmo intervalo de 2024 (9,13%) ficaram abaixo desse patamar desde 2007.

Para ter dimensão: em 2025 o Tesouro emitiu R$ 312 bilhões em NTN-B. No mesmo período do ano anterior, as emissões já estavam em R$ 202 bilhões. Em 2026, até 23 de julho, o acumulado estava em R$ 91,1 bilhões. A redução não é cosmética. É mudança de regime operacional.

Em 7 de julho, o Valor Econômico descreveu leilão com oferta “protocolar” de NTN-B e a maior venda semanal de LFT do ano até então. Em 31 de julho, o mesmo veículo reforçou: o Tesouro voltou a ofertar grandes lotes de LTN curta e deve manter o encurtamento dos prefixados diante da baixa demanda por títulos ligados à inflação.

Em outras palavras, o Tesouro encurta emissões prefixados deixou de ser reação pontual e passou a ser estratégia. O leilão está dizendo: “prefiro rolar no curto e no pós-fixado a referendar um juro real de 8% ao ano em volume alto.”

Tesouro encurta emissões prefixados: por que a NTN-B some?

A resposta curta: porque taxa alta para o investidor é custo alto para o emissor. E o Tesouro, neste momento, não quer “carimbar” esse custo no mercado primário.

No leilão de julho, a NTN-B de 10 anos chegou a 8% ao ano de juro real. No fim de junho, a de 3 anos chegou a 8,56%. São prêmios que o governo considera caros demais para emitir em escala. Cancelar ou reduzir a oferta não apaga a taxa no mercado secundário, mas evita que o Tesouro valide aquele nível como referência oficial de grande volume.

Enquanto isso, no Tesouro Direto, em 30 de julho de 2026, as taxas da pessoa física batiram máximas após a decisão do Federal Reserve americano:

  • IPCA+ 2032: 8,27% ao ano acima da inflação
  • IPCA+ 2040: 7,83%
  • IPCA+ 2050: 7,56% (máxima desde a emissão, em fevereiro de 2025)
  • IPCA+ 2060: 7,65%

No secundário da Anbima, em 28 de julho, o IPCA+ 2050 já havia marcado 7,7149%, o 11º recorde no ano, segundo o E-Investidor. O paradoxo fica explícito: o papel que o governo evita no leilão é exatamente o que o varejo vê como juro real histórico.

Para o leitor que não vive o mercado diariamente, vale traduzir. Não há “erro de preço” na tela do Direto. Há falta de comprador institucional disposto a engolir aquele volume a essas taxas, e há um emissor que prefere não reforçar o nível.

A “tempestade perfeita” da demanda

O NeoFeed descreveu o cenário como tempestade perfeita. Vários fatores se cruzam:

  1. Saturação de previdência e seguradoras. Esses agentes costumam ser compradores naturais de NTN-B de longo prazo. Com menos apetite, sobra papel e sobe o prêmio exigido.
  2. IOF sobre aportes altos em previdência. A cobrança de 5% sobre aportes anuais acima de R$ 600 mil por CPF reduziu o fluxo de recursos que, indiretamente, alimentava a demanda por IPCA+ longo.
  3. Saques em multimercados. Desde 2021, os fundos multimercado acumularam cerca de R$ 610 bilhões em saques líquidos, segundo dados da Anbima citados pelo NeoFeed. Menos patrimônio nesses fundos significa menos capacidade de absorver títulos longos.
  4. Concorrência de LCI, LCA e debêntures incentivadas. Papéis isentos de Imposto de Renda, ligados ao crédito imobiliário, ao agronegócio ou a projetos incentivados, disputam o mesmo investidor que antes olhava o IPCA+ do governo.
  5. Prêmio fiscal e dívida/PIB elevada. Com a dívida pública citada em torno de 80% do PIB (contra cerca de 66% em 2015, no debate do E-Investidor), o mercado cobra mais para travar juro real longo.

Nenhuma dessas peças, isolada, explica 1,64%. Juntas, explicam por que o Tesouro encontrou a maior dificuldade em quase duas décadas para colocar NTN-B.

Só que “NTN-B some do leilão” não significa “sumiu do Tesouro Direto”. A pessoa física ainda compra. O que rareou foi o volume institucional no mercado primário. São portas diferentes do mesmo edifício.

Tesouro encurta emissões prefixados: o que muda no risco

Encurtar prefixados parece decisão técnica. Na prática, altera o perfil de risco da dívida e, por efeito colateral, o ambiente em que sua carteira de renda fixa vive.

Segundo números do JPMorgan citados pelo InfoMoney, o prazo médio da dívida em maio de 2026 estava em 47,5 meses, contra 48,9 um ano antes. Nas novas emissões, o movimento é mais nítido:

Tipo de títuloPrazo médio das novas emissões (antes → agora)Leitura prática
LFT (Selic)68,5 → 73,6 mesesPós-fixado um pouco mais longo
Prefixados43,3 → 31,8 mesesPré claramente mais curto
NTN-B (IPCA+)98,5 → 87,8 mesesHíbrido menos longo

O estoque atrelado à Selic já representa 50,1% da dívida, contra cerca de 41% três anos atrás. E o risco de repactuação em 12 meses, medido pelo UBS, chegou perto de 63% em maio, o maior da série. Em português claro: uma fatia maior da dívida precisa ser rolada em prazo curto, e boa parte dela acompanha a taxa básica em tempo quase real.

O que isso significa? Se a Selic permanecer elevada, o custo da dívida sobe na hora, não só no vencimento de um prefixado longo. O governo ganha flexibilidade tática no leilão (vende o que o mercado quer) e perde um pouco de previsibilidade de custo no médio prazo.

Em 24 de julho, o Tesouro pediu ao Senado trocar o teto cumulativo de emissão externa de US$ 100 bilhões por uma liberação anual de US$ 35 bilhões. A dívida interna citada no mesmo contexto era de R$ 8,692 trilhões, contra R$ 340,49 bilhões de dívida externa. O ponto não é “default”. É composição e custo: o grosso do financiamento continua doméstico, e o mix doméstico ficou mais sensível à Selic e mais curto no prefixado.

Quem já acompanhou o debate sobre o mix Selic vs IPCA+ na dívida pública reconhece o fio. Aqui o gancho é outro: a estratégia de emissão de julho, com NTN-B residual, LFT dominante e prefixado curto.

O que isso significa para o seu dinheiro

Três consequências práticas para a carteira:

  1. Mais papel Selic no sistema reforça a relevância do Tesouro Selic (e de CDBs pós-fixados) como âncora de liquidez. A taxa básica continua sendo o “chão” da renda fixa.
  2. Prefixado curto no leilão não é o mesmo que prefixado longo no Direto. O governo está travando menos prazo. Você, se comprar Pref. 2032, continua com duration longa, o prazo médio ponderado do título, e sensibilidade alta a variações de juros.
  3. IPCA+ caro de emitir costuma coincidir com IPCA+ “caro” (no bom sentido) para quem compra e carrega até o vencimento. A armadilha está em vender no meio do caminho, sob marcação a mercado.

Em 30 de julho, no mesmo dia em que o IPCA+ bateu máximas no Direto, os prefixados cederam um pouco: o Pref. 2029 saiu de 14,25% para 14,15%, e o 2032 de 14,64% para 14,56%. A inflação implícita entre prefixado e IPCA+ no vencimento 2032 caiu de cerca de 5,89% para cerca de 5,81%. O mercado ajusta preços o tempo todo. Taxa na tela é fotografia, não contrato eterno.

No Tesouro Direto: IPCA+, Selic e prefixado curto

Agora a pergunta que importa: o que fazer com a informação na prateleira da pessoa física?

Antes, um mapa rápido dos três pilares:

Produto no DiretoLógica de remuneraçãoPara quem costuma fazer sentidoPrincipal risco de mercado
Tesouro Selic (LFT)Acompanha a SelicReserva e liquidezBaixo (preço estável)
Prefixado (LTN/NTN-F)Taxa fixa combinada na compraQuem acredita em queda de juros e tem prazo definidoAlto se vender antes (marcação)
Tesouro IPCA+ (NTN-B)IPCA + juro real fixoQuem quer proteger poder de compra no longo prazoAlto se vender antes (duration)

Se você quer entender a mecânica do título híbrido com e sem cupom, há um guia específico sobre como funciona a NTN-B no Tesouro Direto. Aqui o foco é a decisão de conjuntura.

Exemplo numérico: carregar vs. remarcar

Imagine que você aplica R$ 50.000 no IPCA+ 2032 a 8,27% ao ano acima da inflação, em 30 de julho de 2026, com intenção de carregar até o vencimento.

Se a inflação média do período for, hipoteticamente, 4% ao ano, a remuneração bruta aproximada fica perto de 12,6% ao ano (IPCA + juro real), antes do Imposto de Renda. No vencimento, você recebe o que contratou: inflação do período mais 8,27% ao ano. O “preço de tela” no meio do caminho é irrelevante se você não vender.

Agora o cenário inverso. Você precisa do dinheiro em 18 meses. Nesse intervalo, se o juro real exigido pelo mercado subir ainda mais, o preço do título cai. Você pode realizar prejuízo nominal mesmo com “taxa contratada” alta. É a marcação a mercado no IPCA+ e no prefixado: o valor de resgate antecipado acompanha as taxas vigentes, não só a taxa da sua compra.

Para ter dimensão: um título longo (2050, 2060) tem duration maior. Quanto maior o prazo médio ponderado, maior a oscilação de preço para cada 0,10 ponto percentual de variação nas taxas. Taxa de 7,56% no 2050 pode ser excelente para quem pensa em aposentadoria. Pode ser desconfortável para quem pode precisar resgatar em dois anos.

Prefixado curto no leilão ≠ trava longa na sua carteira

Quando o Tesouro vende LTN curta em lote grande, está rolando dívida com vencimento próximo. Isso não “protege” o investidor que compra Pref. 2032 no Direto. São decisões independentes.

Se o seu objetivo é travar taxa por dois ou três anos, o prefixado curto (ou um CDB prefixado de prazo similar) conversa com esse horizonte. Se o objetivo é 2032, você está fazendo outra aposta: a de que a taxa contratada hoje compensará a volatilidade até lá. O guia do prefixado LTN e o encurtamento das emissões aprofunda a mecânica do título bullet (pagamento concentrado no vencimento).

No mesmo dia 30 de julho, enquanto o IPCA+ subia, os prefixados cediam levemente. Isso ilustra o movimento relativo entre pré e híbrido. Não é sinal de “qual está certo”. É o mercado recalibrando expectativas de juros e de inflação implícita.

Onde podem estar as oportunidades

Sem tom de urgência: oportunidades aparecem quando preço e horizonte se encontram.

  • Horizonte longo (8 anos ou mais) e dinheiro que pode ficar parado: IPCA+ em juro real de 7,5% a 8%+ ao ano é nível raro na história recente. Faz sentido avaliar, com clareza de que a taxa só se materializa se você carregar (ou se as taxas caírem e você vender com ganho de marcação).
  • Reserva e caixa: Tesouro Selic continua sendo a referência de liquidez no universo de títulos públicos. O fato de a LFT dominar as emissões reforça, e não enfraquece, esse papel.
  • Médio prazo com tese de queda de juros: prefixados curtos e intermediários podem entrar, mas com tamanho de posição compatível com a volatilidade.
  • Fora do Tesouro: LCI, LCA e debêntures incentivadas competem com o IPCA+ na alocação de quem busca retorno. Compare taxa líquida de IR, prazo de carência e risco de crédito. A Meelion reúne opções de diferentes bancos e emissores para você simular com clareza.

A taxa recorde do IPCA+ não é “óbvia” de comprar só porque o número é alto. É prêmio de risco mais escassez de demanda institucional. O investidor que entende isso decide melhor do que o que só lê a manchete.

O que fazer agora: checklist por horizonte

Em vez de uma regra única, use o horizonte como filtro. O mesmo título muda de sentido conforme o prazo do seu dinheiro.

1. Liquidez e reserva (até 12 meses)

  • Priorize Tesouro Selic ou equivalentes pós-fixados com liquidez diária.
  • Evite IPCA+ longo e prefixado longo “só porque a taxa está alta”.
  • Aceite que o retorno será próximo da Selic. O trabalho dessa fatia é estar disponível, não maximizar juro real.

Exemplo: R$ 40.000 de reserva de emergência em Tesouro Selic. Se a Selic estiver em patamar elevado, o rendimento acompanha. Se cair, o rendimento cai junto, mas o principal não sofre o tombo típico de um prefixado longo na marcação a mercado.

2. Médio prazo (1 a 5 anos)

  • Defina o uso do dinheiro (entrada de imóvel, educação, projeto). O vencimento do título deve dialogar com essa data.
  • Prefixado curto ou intermediário pode travar taxa se você acredita que os juros vão ceder.
  • IPCA+ curto (quando disponível) protege contra surpresa de inflação no período.
  • Não misture “quero rentabilidade de longo prazo” com “posso precisar em 24 meses”.

Exemplo: R$ 80.000 para uma meta em 2029. Um Pref. 2029 alinhado ao prazo reduz o risco de ter de vender no pior momento. Um IPCA+ 2050 na mesma fatia seria desalinhamento clássico de horizonte.

3. Longo prazo e aposentadoria (acima de 5 a 8 anos)

  • IPCA+ com juro real elevado entra no radar com mais naturalidade.
  • Prefira carregar até o vencimento. Trate a marcação a mercado como ruído, não como resultado.
  • Diversifique vencimentos (2032, 2040, 2050) se o volume for relevante, para não concentrar duration em um único ponto.
  • Combine com uma base Selic: proteção de poder de compra não substitui caixa.

Exemplo: de R$ 200.000 destinados à aposentadoria, R$ 120.000 em IPCA+ com vencimentos escalonados e R$ 80.000 em pós-fixados/caixa. A proporção é ilustrativa. O ponto é o equilíbrio entre trava real e flexibilidade.

Checklist rápido antes de comprar IPCA+ “em máxima”

  1. Esse dinheiro pode ficar até o vencimento (ou por muitos anos)?
  2. Eu entendo que vender antes pode gerar prejuízo mesmo com taxa contratada alta?
  3. Já separei a reserva de emergência em Selic ou equivalente?
  4. Estou comprando pelo horizonte, ou só pela manchete do juro real?
  5. Comparei a taxa líquida com alternativas isentas (LCI/LCA) no mesmo prazo?

Se a resposta a (1) e (2) for “não”, a taxa de 8,27% não é oportunidade. É risco mal calibrado.

Erros comuns neste cenário

Conjuntura de taxa alta e leilão “seco” de NTN-B aumenta a chance de decisões por manchete. Alguns erros se repetem:

Confundir leilão com Direto. O governo reduzir NTN-B no primário não apaga o IPCA+ do aplicativo. Também não significa que a taxa do Direto “vai sumir amanhã”. São fluxos distintos.

Ler taxa alta como sinal de compra automática. Taxa alta embute prêmio. Às vezes o prêmio compensa. Às vezes é aviso de incerteza fiscal e de demanda fraca. O trabalho é cruzar o número com o seu prazo.

Usar IPCA+ 2050 como reserva. Duration longa e necessidade de liquidez não combinam. O prejuízo na venda antecipada costuma ser a surpresa mais cara desse ciclo.

Ignorar a Selic no mix. Com 50,1% do estoque da dívida atrelado à taxa básica, o custo de financiamento do governo (e o piso da renda fixa) continua orbitando a Selic. Desprezar o pós-fixado neste momento é deixar a âncora de lado.

Achar que prefixado curto do Tesouro “resolve” o risco do pré longo. O encurtamento é estratégia do emissor. Sua carteira só encurta se você escolher títulos curtos.

Esquecer o Imposto de Renda. No Tesouro Direto, há IR regressivo sobre o juro (tabela clássica de renda fixa). Em LCI e LCA, a isenção muda a comparação de taxa bruta versus líquida. Sem esse ajuste, a “melhor taxa” na tela pode ser ilusão.

Perguntas frequentes

O Tesouro cancelar NTN-B significa que o IPCA+ vai cair de preço?

Não necessariamente. Cancelar ou reduzir leilão evita que o governo emita volume alto a taxas que considera caras. O preço no secundário e no Direto continua sendo definido por oferta e demanda. Em julho de 2026, a redução no leilão conviviu com máximas no Direto e no secundário Anbima.

Juro real de 8% no IPCA+ é “bom demais para ser verdade”?

É alto em perspectiva histórica e embute risco: fiscal, de demanda e de marcação a mercado. Para quem carrega até o vencimento com dinheiro que não precisa, pode ser nível atrativo. Para quem pode resgatar cedo, o número na tela não garante resultado positivo.

Por que o governo emite tanto Tesouro Selic agora?

Porque encontra demanda e porque a LFT facilita a colocação em cenário adverso. O custo é a sensibilidade imediata à Selic: se a taxa básica segue alta, o serviço da dívida sobe junto. É escolha de rolagem, não sinal de que o pós-fixado “acabou” para o investidor.

Prefixado curto é mais seguro que IPCA+ longo?

Depende do horizonte. Em prazo curto, o prefixado curto tem menos tempo para a marcação a mercado castigar. O IPCA+ longo protege melhor o poder de compra em décadas, mas oscila mais no preço se você sair antes. Segurança, aqui, é alinhamento de prazo, não rótulo do produto.

A dívida mais curta e mais pós-fixada ameaça o investidor de Tesouro Direto?

Não no sentido de calote. O risco relevante é outro: ambiente de juros altos por mais tempo eleva o custo de rolagem do governo e mantém a renda fixa em patamar elevado, com volatilidade maior nos títulos longos. O investidor sente isso na marcação e nas taxas oferecidas, não em um evento binário.

Devo trocar tudo de Selic para IPCA+?

Não. Reserva continua em liquidez. IPCA+ é fatia de longo prazo. Misturar os papéis no mesmo “pote” mental é o caminho mais curto para vender o título errado na hora errada.

LCI e LCA substituem o Tesouro IPCA+?

Às vezes complementam, às vezes competem. Isenção de IR melhora a taxa líquida, mas há risco de crédito do emissor (com proteção do FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, até R$ 250 mil por CPF por instituição, no caso de LCI/LCA elegíveis) e prazos de carência. O Tesouro tem risco soberano doméstico e liquidez diária em condições normais de mercado. São ferramentas diferentes.

O olhar da Meelion

Julho de 2026 não pede heroísmo de carteira. Pede leitura fria do paradoxo: o emissor foge do IPCA+ caro, o varejo vê juro real alto, e o prefixado encurta no leilão enquanto a Selic domina o mix.

A decisão inteligente separa três camadas. Caixa no pós-fixado. Metas de médio prazo em títulos alinhados ao calendário. Patrimônio de longo prazo, se houver, com IPCA+ carregado de propósito, não de impulso. Indicadores de Selic, CDI e IPCA ajudam a calibrar o momento. Você pode acompanhá-los em tempo claro na página de indicadores financeiros da Meelion.

Taxa recorde sem horizonte é ruído. Horizonte sem taxa atrativa é paciência. Os dois juntos, com tamanho de posição adequado, são estratégia.

Conclusão

O leilão de julho mostrou o cenário em que o Tesouro encurta emissões prefixados e vende o que o mercado absorve: LFT em maioria, prazos mais curtos e NTN-B residual. No Direto, o IPCA+ chegou a máximas. Os dois fatos convivem porque emissor e investidor otimizam coisas diferentes: custo de rolagem de um lado, juro real contratado do outro.

Para o seu dinheiro, a pergunta útil não é “a taxa de 8,27% é a melhor da história?”. É “esse título conversa com o prazo em que eu posso deixar o recurso parado?”. Com essa lente, o encurtamento das emissões deixa de ser manchete abstrata e vira critério de alocação. Invista com mais consciência, compare alternativas e mantenha a reserva onde ela precisa estar: disponível.

Este artigo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento.

Glossário

  • Selic: taxa básica de juros da economia brasileira. Influencia empréstimos, financiamentos e o piso da renda fixa.
  • IPCA: índice que mede a alta geral dos preços (inflação) no Brasil.
  • Tesouro Direto: títulos emitidos pelo governo federal, comprados diretamente pelo investidor pessoa física.
  • LFT (Tesouro Selic): título pós-fixado que acompanha a variação da Selic.
  • LTN: título prefixado sem cupom intermediário (bullet), com pagamento concentrado no vencimento.
  • NTN-F: título prefixado com juros pagos semestralmente.
  • NTN-B (Tesouro IPCA+): título que paga IPCA mais um juro real fixo definido na compra.
  • Juro real: remuneração acima da inflação. No IPCA+, é a taxa prefixada somada ao índice.
  • Mercado primário / leilão: emissão de títulos novos pelo Tesouro a instituições.
  • Mercado secundário: negociação de títulos já emitidos entre investidores; a Anbima divulga referências de taxa.
  • Duration: prazo médio ponderado de um título. Quanto maior, mais sensível o preço a variações de juros.
  • Marcação a mercado: atualização do preço do título conforme as taxas vigentes. Afeta o valor de venda antecipada.
  • Inflação implícita: diferença aproximada entre a taxa do prefixado e a do IPCA+ de mesmo vencimento; leitura de expectativa de inflação embutida nos preços.
  • CDI: taxa de referência dos investimentos em renda fixa, próxima à Selic.
  • CDB: empréstimo que o investidor faz ao banco em troca de uma remuneração.
  • LCI / LCA: investimentos isentos de Imposto de Renda ligados ao setor imobiliário e ao agronegócio, respectivamente.
  • Debêntures: títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos; algumas têm incentivo fiscal.
  • FGC: Fundo Garantidor de Créditos, que protege até R$ 250 mil por CPF por instituição em produtos elegíveis.
  • IOF: Imposto sobre Operações Financeiras. No contexto do artigo, a alíquota de 5% sobre aportes anuais de previdência acima de R$ 600 mil por CPF.
  • Rolagem / repactuação: necessidade de emitir dívida nova para pagar títulos que vencem.

Fontes Consultadas

  • NeoFeed: https://neofeed.com.br/economia/na-tempestade-perfeita-do-tesouro-nacional-emissoes-de-ntn-bs-caem-ao-menor-nivel-em-20-anos/
  • Valor Econômico: https://valor.globo.com/financas/intraday/post/2026/07/cenario-adverso-leva-tesouro-a-encurtar-emissoes-de-prefixados.ghtml
  • Valor Econômico: https://valor.globo.com/financas/intraday/post/2026/07/tesouro-evita-ntn-bs-e-intensifica-emissoes-de-lfts.ghtml
  • InfoMoney: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/ate-827-taxas-do-tesouro-ipca-sobem-e-batem-recorde-apos-decisao-do-fed/
  • InfoMoney: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/apos-ipca-tesouro-selic-pode-ser-proximo-a-pagar-taxa-mais-alta-entenda/
  • E-Investidor / Estadão: https://www.estadao.com.br/einvestidor/taxa-do-tesouro-ipca-2050-bate-11-recorde-no-ano-oportunidade/
  • Estadão: https://www.estadao.com.br/economia/tesouro-cancela-leilao-de-titulos-e-mercado-ve-estrategia-para-nao-referendar-taxas-elevadas/
  • InfoMoney: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/leilao-ntn-b-tesouro-nacional-7072026/
  • E-Investidor: https://einvestidor.estadao.com.br/educacao-financeira/tesouro-ipca-como-funciona-investir/
  • E-Investidor: https://einvestidor.estadao.com.br/investimentos/selic-ipca-investimento-tesouro-direto/
  • Anbima: https://www.anbima.com.br/pt_br/noticias
Dan Mark Printes

Dan Printes é fundador da Meelion e empreendedor na área de tecnologia. Atua com inteligência artificial, produtos digitais e investimentos, com especial interesse em renda fixa e na aplicação de tecnologia para tornar decisões financeiras mais simples e inteligentes. Neste espaço, compartilha insights sobre investimentos, economia, renda fixa e outros temas relacionados ao mercado financeiro.

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