Poupança ou CDB com a Selic caindo: quando a poupança empata?

Existe uma ideia que volta a circular toda vez que o Banco Central começa a cortar juros: a de que a caderneta, enfim, vai voltar a valer a pena. A lógica parece sólida. Se a parte fixa da poupança não cai e o CDI cai, uma hora os dois se encontram. Com a Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, em 13,75% e o mercado projetando novos cortes, a dúvida entre poupança ou CDB voltou a ocupar a cabeça de quem tem dinheiro parado na caderneta.

Os brasileiros, por enquanto, estão respondendo com os pés. Em setembro, os saques da poupança superaram os depósitos em R$ 9,35 bilhões, segundo os dados divulgados pelo Banco Central em 9 de outubro. No ano, já são R$ 66,4 bilhões a menos. E quem mais sai não são as contas milionárias, mas as de R$ 10 mil a R$ 50 mil: o dinheiro da classe média, muitas vezes a reserva da família inteira.

Este artigo testa a promessa com números. Vamos mostrar como a poupança rende de fato, por que a peça que encolhe junto com a Selic não é a que você imagina, em que nível de juros a diferença para o CDB fica menor e quanto um saldo de R$ 5 mil, R$ 20 mil ou R$ 50 mil deixa na mesa até lá. Adiantando a conclusão: para a maior parte dos poupadores, o empate não chega.

Poupança perde R$ 9,35 bi em setembro: o que mostram os números do Banco Central

Vamos do começo. Em setembro de 2026, os brasileiros depositaram R$ 338,99 bilhões na caderneta e sacaram R$ 348,34 bilhões. A diferença entre as duas contas, chamada de captação líquida, ficou negativa em R$ 9,35 bilhões. Nem o rendimento creditado no mês, de R$ 6,53 bilhões, compensou a saída: o estoque total recuou de R$ 1,016 trilhão em agosto para cerca de R$ 1,01 trilhão.

Há uma leitura mais amena possível, e ela merece ser feita com cuidado. A saída de setembro foi 37,7% menor que a de setembro de 2025, quando a poupança perdeu R$ 15 bilhões, e também menor que a de agosto deste ano, de R$ 10,57 bilhões. O ritmo desacelerou. A direção, porém, continua a mesma: de janeiro a setembro, maio foi o único mês em que entrou mais dinheiro do que saiu.

IndicadorSetembro de 2026Janeiro a setembro de 2026
DepósitosR$ 338,99 biR$ 3,203 tri
SaquesR$ 348,34 biR$ 3,27 tri
Captação líquidaSaída de R$ 9,35 biSaída de R$ 66,43 bi
SBPE (poupança ligada ao crédito imobiliário)Saída de R$ 6,19 biSaída de R$ 53,2 bi
Poupança ruralSaída de R$ 3,16 biSaída de R$ 13,2 bi
Mesmo período de 2025Saída de R$ 15,0 biSaída de R$ 78,5 bi

Os números se dividem em duas carteiras. A maior é a do SBPE, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, cujo dinheiro os bancos precisam direcionar em boa parte para o financiamento imobiliário. A outra é a poupança rural, que abastece o crédito ao agronegócio. As duas perderam recursos em setembro. Por isso a saída da caderneta preocupa também o setor de construção: menos dinheiro na poupança significa menos recursos baratos para financiar a casa própria.

Quem está saindo da poupança

O perfil de quem sai ajuda a entender o fenômeno. Pelo censo do FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, que protege até R$ 250 mil por CPF por instituição, a saída entre janeiro e abril de 2026 veio principalmente das contas de R$ 10 mil a R$ 50 mil. A faixa de R$ 20 mil a R$ 50 mil é a maior do estoque e a que mais encolhe. As contas acima de R$ 400 mil, curiosamente, cresceram.

Os planejadores financeiros ouvidos pela imprensa apontam dois motivos. O primeiro é a busca por alternativas que rendem mais com a mesma segurança: Tesouro Selic, CDB de liquidez diária, fundos DI e o novo Tesouro Reserva. O segundo é menos confortável: o endividamento das famílias, que obriga muita gente a usar a reserva para pagar contas. O movimento não é novo, e já tínhamos analisado a saída de R$ 7,15 bi em julho e as alternativas daquele momento.

Esse detalhe importa. Quem está saindo é exatamente o poupador para quem a diferença de rendimento pesa mais no orçamento. E é esse poupador que agora ouve, em conversas de família e nas redes, que com a Selic caindo a caderneta vai voltar a compensar. A conta, porém, não fecha. Vamos a ela.

Como a poupança rende hoje: 0,5% ao mês mais TR, e por que 8,5% é a linha que importa

Com a Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança nova rende 0,5% ao mês mais a TR, creditados no aniversário da conta. Com a TR de 0,1616% do aniversário de 1º de outubro, isso dá 0,6624% no mês, ou cerca de 8,24% ao ano, isento de Imposto de Renda.

A regra está na Lei 12.703, de 2012, e tem duas faixas. Enquanto a meta da Selic estiver acima de 8,5% ao ano, a remuneração adicional é fixa em 0,5% ao mês. Quando a Selic fica em 8,5% ou abaixo, a remuneração passa a ser 70% da Selic, convertida para uma taxa mensal. Nas duas faixas, soma-se a TR.

A TR merece tradução, porque é ela que decide a história. A Taxa Referencial é um índice calculado pelo Banco Central a partir da TBF, a taxa básica financeira, que por sua vez reflete os juros pagos pelos CDBs prefixados de 30 a 35 dias dos grandes bancos. Sobre a TBF, o BC aplica um redutor. O resultado é um número pequeno, que muda todos os dias e que, na prática, acompanha o nível dos juros de curto prazo.

Existe ainda uma terceira situação, que muita gente esquece: a poupança antiga. Depósitos feitos antes de 4 de maio de 2012 continuam rendendo sempre 0,5% ao mês mais TR, qualquer que seja a Selic. Esse detalhe vai fazer diferença mais adiante.

O aniversário e a TR que mudou em uma semana

A poupança credita rendimento uma vez por mês, na data em que o depósito completa mais um mês na conta, o chamado aniversário. Como a TR muda a cada dia, contas com aniversários diferentes recebem rendimentos diferentes. Veja o que aconteceu em apenas uma semana de outubro, segundo as séries do Banco Central.

AniversárioTR do períodoRendimento da poupança no mês
1º de outubro0,1616%0,6624%
6 de outubro0,1609%0,6617%
7 de outubro0,1493%0,6500%
8 de outubro0,1212%0,6218%

Em uma semana, o rendimento mensal caiu de 0,6624% para 0,6218%. Em termos anuais, é a diferença entre cerca de 8,24% e 7,72%. A parte fixa ficou exatamente igual. Quem mudou foi a TR. A tabela a seguir mostra quanto a poupança rende ao ano conforme o nível da TR.

TR mensalPoupança ao mêsPoupança ao ano
0,1616% (1º/10/2026)0,6624%8,24%
0,1212% (8/10/2026)0,6218%7,72%
0,10%0,6005%7,45%
0,07%0,5703%7,06%
0,05%0,5502%6,81%
0,03%0,5301%6,55%
0,00%0,5000%6,17%

O que isso significa para o seu dinheiro

A frase “a parte fixa não cai” é verdadeira, mas conta só metade da história. Com a TR zerada, a poupança rende 6,17% ao ano: esse é o piso enquanto a Selic estiver acima de 8,5%. Nos últimos 12 meses, a caderneta acumulou cerca de 8,3%. Ou seja, pouco mais de 2 pontos percentuais do rendimento recente vieram da TR. É justamente essa parcela que está em jogo quando os juros caem.

Selic caindo: a TR cai junto, e a vantagem da poupança não aparece

O Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que define a Selic a cada 45 dias, cortou a taxa para 13,75% na reunião de 15 e 16 de setembro. A próxima reunião acontece em 3 e 4 de novembro, com decisão anunciada na quarta-feira, dia 4, às 18h30. Depois dela, ainda há o encontro de 8 e 9 de dezembro.

Para saber o que vem pela frente, a referência é o Boletim Focus, a pesquisa semanal em que o Banco Central reúne as projeções de bancos, gestoras e consultorias. Na edição de 5 de outubro, com 139 respondentes para 2026, a mediana aponta a Selic em 13,50% no fim de 2026, 12% no fim de 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029 e 2030. Reunião a reunião, o mercado espera corte para 13,50% em novembro, pausa em dezembro e janeiro e retomada gradual a partir de março de 2027.

Repare no que esses números não dizem: pelo Focus, a Selic não chega a 8,5% até 2030. A regra dos 70% não entra em vigor em todo o horizonte de projeção. Até onde o mercado consegue enxergar, a poupança nova continua no regime de 0,5% ao mês mais TR.

O que os ciclos de 2017 e de 2023 ensinam

Se a parte fixa não muda, a pergunta passa a ser: o que acontece com a TR quando a Selic cai? A história do Banco Central responde com clareza. Cruzando a TR do dia 1º de cada mês com a Selic vigente, os dois últimos ciclos de cortes mostram o mesmo padrão.

DataSelic metaTR do mês (dia 1º)
01/01/201713,75%0,1700%
01/05/201711,25%0,0764%
01/07/201710,25%0,0623%
01/08/20179,25%0,0509%
01/09/20179,25%0,0000%
01/10/20178,25%0,0000%
01/08/202313,75%0,2160%
01/10/202312,75%0,1056%
01/12/202312,25%0,0690%
01/02/202411,25%0,0079%
01/06/202410,50%0,0365%
01/09/202410,50%0,0675%
01/10/2026 (hoje)13,75%0,1616%

Em 2017, a TR começou o ano em 0,17% com a Selic a 13,75%, exatamente o nível de hoje, e zerou quando a Selic chegou a 9,25%. Entre 2023 e 2024, com a Selic entre 10,50% e 12,75%, ela oscilou entre 0,01% e 0,10%. A TR é volátil de um mês para outro: foi de 0,0079% em fevereiro de 2024 para 0,1023% em abril do mesmo ano. Mas a tendência é inequívoca. Juro menor, TR menor.

Há também uma questão de tempo. Como a TR nasce dos juros dos CDBs prefixados, e esses juros já embutem os cortes que o mercado espera, ela costuma cair antes da própria Selic. É o que ajuda a explicar o tombo de 0,1616% para 0,1212% em uma semana, sem nenhuma reunião do Copom no meio. A poupança começa a perder fôlego antes mesmo de os cortes acontecerem.

Esse é o ponto que costuma passar despercebido na conversa sobre o que a queda da Selic muda na renda fixa: o CDI cai, sim, mas a poupança também cai, só que por outro caminho. A distância entre as duas diminui, mas bem mais devagar do que a intuição sugere.

Poupança ou CDB: em que Selic os dois empatam depois do IR?

Para a poupança nova, o CDB que paga 100% do CDI não empata em nenhum nível de Selic depois do Imposto de Renda. A diferença encolhe de cerca de 3 pontos percentuais hoje para perto de 0,5 ponto com a Selic entre 8,5% e 9%, e o CDB continua na frente mesmo abaixo disso.

Primeiro, os termos. O CDB é um empréstimo que o investidor faz ao banco em troca de uma remuneração. Os mais comuns pagam um percentual do CDI, a taxa de referência dos investimentos em renda fixa, próxima à Selic e hoje em 13,65% ao ano. Diferentemente da poupança, o CDB paga Imposto de Renda pela tabela regressiva do IR: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima disso.

A conta, então, é simples de enunciar. O CDB líquido é o CDI multiplicado pelo percentual pago e, depois, por (1 menos a alíquota do IR). A poupança é 0,5% ao mês mais TR, sem imposto. Empata quando os dois resultados se igualam. Hoje, isso significa que um CDB precisa pagar de 71% a 78% do CDI para render o mesmo que a caderneta.

Prazo da aplicação (alíquota de IR)Empate com TR de 0,1616% (poupança a 8,24%)Empate com TR de 0,1212% (poupança a 7,72%)
Até 180 dias (22,5%)77,9% do CDI73,0% do CDI
181 a 360 dias (20%)75,5% do CDI70,7% do CDI
361 a 720 dias (17,5%)73,2% do CDI68,6% do CDI
Acima de 720 dias (15%)71,1% do CDI66,6% do CDI

Sem considerar o imposto, a poupança equivale hoje a cerca de 60% do CDI. Com o IR, ela sobe para a faixa de 71% a 78%. A isenção ajuda bastante, mas está longe de compensar a distância.

A tabela central: Selic a Selic

Agora, a pergunta do título. A tabela abaixo simula, para cada nível de Selic, o rendimento anual da poupança e de um CDB de 100% do CDI líquido de IR. Duas premissas: o CDI fica 0,10 ponto abaixo da Selic, como hoje, e a TR segue o mesmo patamar observado nos ciclos de 2017 e de 2023/24. São estimativas, não previsões, porque a TR oscila bastante mês a mês. Abaixo de 8,5%, vale a regra dos 70% da Selic.

SelicCDITR estimadaPoupança ao anoCDB líquido (IR 22,5%)CDB líquido (IR 17,5%)Vantagem do CDB (22,5%)Vantagem do CDB (17,5%)
13,75%13,65%0,16%8,22%10,58%11,26%2,35 p.p.3,04 p.p.
13,50%13,40%0,15%8,09%10,38%11,05%2,29 p.p.2,96 p.p.
13,00%12,90%0,12%7,71%10,00%10,64%2,29 p.p.2,94 p.p.
12,50%12,40%0,10%7,45%9,61%10,23%2,16 p.p.2,78 p.p.
12,00%11,90%0,09%7,32%9,22%9,82%1,90 p.p.2,50 p.p.
11,00%10,90%0,07%7,06%8,45%8,99%1,38 p.p.1,93 p.p.
10,50%10,40%0,06%6,93%8,06%8,58%1,13 p.p.1,65 p.p.
10,00%9,90%0,05%6,81%7,67%8,17%0,87 p.p.1,36 p.p.
9,50%9,40%0,03%6,55%7,29%7,75%0,73 p.p.1,20 p.p.
9,25%9,15%0,02%6,42%7,09%7,55%0,67 p.p.1,13 p.p.
9,00%8,90%0,00%6,17%6,90%7,34%0,73 p.p.1,17 p.p.
8,75%8,65%0,00%6,17%6,70%7,14%0,54 p.p.0,97 p.p.
8,50% (regra dos 70%)8,40%não se aplica5,95%6,51%6,93%0,56 p.p.0,98 p.p.
8,00% (regra dos 70%)7,90%não se aplica5,60%6,12%6,52%0,52 p.p.0,92 p.p.
7,00% (regra dos 70%)6,90%não se aplica4,90%5,35%5,69%0,45 p.p.0,79 p.p.

A leitura é direta. A vantagem do CDB cai de cerca de 3 pontos percentuais hoje (na alíquota de 17,5%) para algo entre 1,1 e 1,7 ponto com a Selic de 10% a 10,5%, que é o destino projetado pelo Focus para 2028 e 2029. O menor intervalo, de cerca de 0,5 ponto no prazo de até seis meses, aparece com a Selic entre 8,5% e 9%: a TR já zerou, mas a parte fixa de 0,5% ao mês ainda vale. É um nível que o Focus nem projeta.

E abaixo de 8,5%? A poupança passa a render 70% da Selic, enquanto o CDB de 100% do CDI entrega 77,5% do CDI mesmo com o IR máximo de 22,5%. A distância em pontos fica pequena porque todos os juros ficam menores, mas o CDB segue na frente. Em nenhuma linha da tabela a poupança alcança o CDB.

A TR que a poupança precisaria ter

Outra forma de enxergar o mesmo resultado é inverter a pergunta: qual TR a poupança precisaria pagar para empatar com um CDB de 100% do CDI em cada cenário?

SelicAté 180 dias181 a 360 dias361 a 720 diasAcima de 720 dias
13,75%0,340%0,366%0,391%0,417%
12,00%0,237%0,259%0,282%0,305%
10,50%0,147%0,167%0,187%0,207%
10,00%0,117%0,137%0,156%0,175%
9,25%0,072%0,090%0,108%0,125%
8,75%0,042%0,059%0,076%0,093%

Hoje a TR está entre 0,12% e 0,16% ao mês, menos da metade do necessário. Nos ciclos de 2017 e de 2023/24, ela ficou sempre abaixo desses níveis em cada faixa de Selic. O empate só aconteceria com uma TR alta e uma Selic baixa ao mesmo tempo, combinação que os dados históricos simplesmente não mostram.

Uma observação sobre a coluna de 22,5%. Na reserva de emergência, com aportes e saques frequentes, boa parte do dinheiro fica aplicada por pouco tempo e cai nas alíquotas mais altas. Por isso, para comparar poupança ou CDB no dinheiro do dia a dia, a coluna de até 180 dias é a mais honesta.

Quando a poupança empata (ou até ganha): os três casos que importam

Dizer que a poupança nunca empata seria exagero. Ela empata, e às vezes vence, em situações bem específicas. Conhecer cada uma delas é o que separa uma decisão consciente de uma troca feita no impulso.

1. O CDB que paga pouco

Nem todo CDB paga 100% do CDI. Em grandes bancos, não é raro encontrar aplicações automáticas ou de liquidez diária remunerando bem menos que isso. Com a TR atual, um CDB de 75% do CDI resgatado em até seis meses rende 13,65% vezes 0,75 vezes 0,775, ou cerca de 7,93% ao ano líquido. A poupança, com aniversário no dia 1º, entrega 8,24%. Nesse caso, a caderneta ganha.

Se um dia a regra dos 70% entrar em vigor, a régua sobe. Com a poupança rendendo 70% da Selic, o CDB precisaria pagar pelo menos 91% do CDI no prazo de até 180 dias, 89% entre 181 e 360 dias, 86% entre 361 e 720 dias e 83% acima disso para não perder. A lição vale para hoje e para amanhã: o percentual do CDI que o seu banco paga é o número que decide a comparação.

2. A poupança antiga, anterior a maio de 2012

Esse é o único caso em que a frase “a parte fixa não cai” realmente vence a renda fixa tributada. Como os depósitos feitos antes de 4 de maio de 2012 rendem sempre 0,5% ao mês mais TR, eles não migram para a regra dos 70%. Com a TR zerada, a poupança antiga entrega 6,17% ao ano, isentos.

Para um CDB de 100% do CDI superar isso, o CDI precisa estar acima de 7,96% (IR de 22,5%), 7,71% (20%), 7,48% (17,5%) ou 7,26% (15%). Abaixo desses níveis, a poupança antiga ganha. Hoje, com a Selic a 13,75%, ela também perde para o CDB. Mas se você tem saldo antigo, vale confirmar com o banco quanto do valor é anterior a 2012 antes de sacar tudo. Esse dinheiro pode ser valioso em um cenário de juros baixos no futuro.

3. O saque fora do aniversário, que joga contra a poupança

O terceiro caso funciona no sentido oposto. A poupança só credita rendimento no aniversário. Se o seu dinheiro faz aniversário no dia 1º e você saca R$ 20 mil no dia 28, perde o mês inteiro: cerca de R$ 132, com o rendimento atual de 0,6624%. Um CDB de liquidez diária ou o Tesouro Reserva, por outro lado, rendem por dia útil.

Há um contraponto justo. CDB, Tesouro Selic e Tesouro Reserva cobram IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras, em resgates feitos antes de 30 dias. A alíquota é regressiva: começa em 96% do rendimento no primeiro dia e chega a zero no 30º. A poupança não tem IOF. Para dinheiro que entra e sai em poucos dias, a vantagem do CDB encolhe muito. Para quem deixa o dinheiro parado por mais de um mês, o IOF deixa de existir.

Quanto você perde até lá: R$ 5 mil, R$ 20 mil e R$ 50 mil

Na escolha entre poupança ou CDB, porcentagens convencem pouco. Reais convencem mais. Vamos simular os próximos 12 meses, de outubro de 2026 a setembro de 2027, no cenário do Focus: a Selic caindo gradualmente até 12,50% em setembro de 2027 e a TR descendo de 0,16% para 0,09% ao mês, no mesmo padrão dos ciclos anteriores. Do outro lado, um CDB de 100% do CDI com IR de 17,5%, porque o prazo passa de um ano.

SaldoCDB 100% do CDI (líquido)PoupançaDiferença em 12 mesesDiferença por mês
R$ 5.000R$ 537R$ 385R$ 152R$ 12,65
R$ 20.000R$ 2.149R$ 1.542R$ 607R$ 50,61
R$ 50.000R$ 5.373R$ 3.854R$ 1.518R$ 126,52
R$ 100.000R$ 10.745R$ 7.708R$ 3.037R$ 253

Para ter dimensão: quem mantém R$ 20 mil na caderneta deixa de ganhar cerca de R$ 50 por mês, mesmo com a Selic caindo ao longo do ano inteiro. Com um CDB de 110% do CDI, a diferença sobe para R$ 206 (R$ 5 mil), R$ 822 (R$ 20 mil) e R$ 2.056 (R$ 50 mil).

E se a TR ficasse parada em 0,1616%, o cenário mais favorável possível para a poupança? Ela renderia R$ 1.649 sobre R$ 20 mil, e a diferença cairia para perto de R$ 500. Menor, mas ainda real. A conclusão não muda.

No mesmo cenário de 12 meses, outras alternativas para R$ 20 mil ajudam a completar a fotografia. Uma LCI de 90% do CDI, isenta de IR, renderia cerca de R$ 2.344. O Tesouro Selic ou o Tesouro Reserva entregariam cerca de R$ 2.625 brutos e R$ 2.166 líquidos, com IR de 17,5%. Acima de R$ 10 mil, incide ainda a taxa de custódia da B3, de 0,20% ao ano sobre o valor que excede esse limite, o que tira poucos reais nessa escala.

E se você esperar o ciclo inteiro?

Muita gente pensa em ficar na poupança “até os juros caírem” e então reavaliar. Fizemos a conta até dezembro de 2029, um horizonte de 39 meses em que o Focus projeta a Selic a 10,50% em agosto de 2028 e a 10% em 2029. Como o prazo passa de dois anos, o CDB paga IR de 15%.

SaldoCDB 100% do CDI (líquido)PoupançaDiferença acumulada
R$ 5.000cerca de R$ 1.779cerca de R$ 1.279cerca de R$ 500
R$ 20.000cerca de R$ 7.117cerca de R$ 5.117cerca de R$ 2.000
R$ 50.000cerca de R$ 17.791cerca de R$ 12.792cerca de R$ 5.000

Ou seja, mesmo atravessando todo o ciclo de cortes que o mercado projeta, a poupança fica para trás em cerca de 10% do saldo em pouco mais de três anos. Esperar a Selic cair não resolve a diferença. Apenas adia a decisão, e cada mês adiado custa.

Em escala nacional, a ordem de grandeza impressiona. Um estoque de R$ 1,01 trilhão rendendo 8,24% em vez dos 11,26% de um CDB de 100% do CDI líquido deixa de gerar algo perto de R$ 30 bilhões por ano. É uma conta ilustrativa, já que o estoque inclui contas de passagem, saldos pequenos e poupança antiga, mas ajuda a entender por que tanta gente está se movendo.

Como proteger seu patrimônio

Proteger o patrimônio, aqui, não significa correr para o produto que paga mais. Significa dar a cada real uma função. O dinheiro da reserva de emergência precisa de liquidez e segurança. O dinheiro que tem data para ser usado, daqui a dois ou três anos, pode buscar mais rendimento em troca de prazo. Misturar as duas coisas é a origem da maioria dos arrependimentos na renda fixa.

Poupança ou CDB na prática: para onde levar o dinheiro sem perder liquidez

A boa notícia é que nunca houve tantas alternativas com a mesma simplicidade da caderneta. Para quem está pensando em deixar a poupança a 8,31% na reserva de emergência ou migrar, as opções se dividem por função.

Para a reserva de emergência

  • Tesouro Reserva: lançado em 11 de maio de 2026, rende 100% da Selic a partir do primeiro dia útil após a aplicação, sem marcação a mercado, ou seja, sem oscilações no valor do título antes do vencimento. Aceita aplicações e resgates a partir de R$ 1, a qualquer hora, inclusive em fins de semana e feriados (exceto entre 0h e 1h), com crédito via Pix. O limite é de R$ 500 mil por investidor ao mês. Por enquanto, está disponível apenas para correntistas do Banco do Brasil.
  • Tesouro Selic: título emitido pelo governo federal e comprado diretamente pelo investidor no Tesouro Direto. Rende a Selic mais um pequeno prêmio, entre 0,06% e 0,1% ao ano, com resgate no mesmo dia para pedidos feitos até as 13h em dias úteis. Pode ter pequenas oscilações de preço no curtíssimo prazo.
  • CDB de liquidez diária de pelo menos 100% do CDI: rende por dia útil e pode ser resgatado a qualquer momento. Conta com a cobertura do FGC, desde que você respeite a garantia do FGC de R$ 250 mil por CPF e por instituição. As caixinhas de bancos digitais que aplicam em CDB seguem a mesma lógica: vale checar qual percentual do CDI pagam.

Os três pagam IR regressivo e IOF em resgates antes de 30 dias. Ainda assim, para dinheiro que fica parado por mais de um mês, todos superam a poupança nova com folga, como mostram as tabelas acima.

Para o dinheiro que tem prazo

O dinheiro que não é reserva pode render bem mais. Aqui entram CDBs com vencimento definido e as LCIs e LCAs, investimentos isentos de Imposto de Renda ligados ao setor imobiliário e ao agronegócio. Atenção: as ofertas abaixo não têm liquidez diária. Servem para objetivos com data, não para emergências.

O olhar da Meelion

No levantamento de ofertas da Meelion em 11 de outubro de 2026, as taxas para quem pode deixar o dinheiro aplicado até o vencimento estavam bem acima do que a caderneta entrega. Antes de decidir, vale comparar prazo, emissor e plataforma no ranking de CDBs com as maiores taxas do dia, que reúne opções de diferentes bancos para você simular.

ProdutoTaxaVencimentoAplicação mínimaPlataforma
CDB DM Financeira118% do CDI17/07/2031R$ 1.000Genial
CDB Original (emissor PicPay)118% do CDI17/07/2029R$ 100Nubank
CDB Banco Arbi117% do CDI16/07/2031R$ 1.000Terra Investimentos
CDB Omni Banco117% do CDI03/07/2030R$ 1.000Órama
CDB BTG Pactual110% do CDI26/01/2034cerca de R$ 1.060XP
LCI BRB (Banco de Brasília)107% do CDI07/07/2028R$ 1.000Inter
LCI BRB (Banco de Brasília)105% do CDI17/07/2027R$ 1.000Inter
LCA Original (PicPay)97% do CDI15/07/2028R$ 1.000XP
LCA Pine95% do CDI17/07/2028R$ 500Pine Online

Algumas contas ajudam a colocar esses números em perspectiva. Com o CDI a 13,65%, uma LCI de 105% do CDI rende 14,33% ao ano, isenta. Para igualar isso, um CDB precisaria render 17,4% bruto, o equivalente a 127% do CDI, com IR de 17,5%. Já um CDB de 118% do CDI mantido por mais de dois anos, com IR de 15%, rende cerca de 13,69% líquido, contra 8,24% da poupança. As LCIs do BRB estão cobertas pelo FGC dentro do limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição, um ponto que merece atenção diante do noticiário recente sobre o banco.

Onde podem estar as oportunidades

A oportunidade mais clara deste momento não está em adivinhar a próxima decisão do Copom. Está em parar de aceitar 60% do CDI em troca de uma conveniência que já não é exclusiva da poupança. Com o Tesouro Reserva, as caixinhas de liquidez diária e os CDBs com Pix, a simplicidade deixou de ser argumento. E, para quem tem dinheiro com prazo, travar um percentual alto do CDI ou uma LCI isenta antes de os juros caírem mais permite capturar rendimentos que tendem a ficar mais raros ao longo do ciclo.

Checklist antes do Copom de 4 de novembro

  1. Descubra a data de aniversário da sua poupança. Se decidir sacar, faça isso logo depois dela, para não perder o rendimento do mês.
  2. Separe a reserva do dinheiro com prazo. A reserva vai para Tesouro Reserva, Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária. O resto pode buscar CDB, LCI ou LCA com vencimento.
  3. Cheque o percentual do CDI do seu banco. Abaixo de cerca de 78% do CDI, hoje, a poupança pode ganhar. Acima de 100%, a troca compensa com folga.
  4. Lembre do IOF de 30 dias. Dinheiro que você vai usar nas próximas semanas pode ficar onde está.
  5. Respeite o limite do FGC. Até R$ 250 mil por CPF e por instituição, somando todos os produtos cobertos naquele banco.
  6. Se você tem poupança antiga, faça a conta antes de mexer. O saldo anterior a maio de 2012 pode ser útil em um futuro de juros mais baixos.

Perguntas frequentes

A poupança rende mais quando a Selic cai?

Não. Enquanto a Selic estiver acima de 8,5%, a parte fixa de 0,5% ao mês se mantém, mas a TR cai junto com os juros. Por isso o rendimento total da poupança diminui. Em 2017, a TR zerou com a Selic a 9,25%, e a poupança desceu para 6,17% ao ano.

Poupança ou CDB: qual vale mais com a Selic caindo?

Para a poupança nova, um CDB que paga pelo menos 100% do CDI continua rendendo mais em todos os cenários de Selic simulados, mesmo depois do Imposto de Renda. A diferença diminui ao longo do ciclo de cortes, mas não desaparece. A poupança só leva vantagem contra CDBs que pagam pouco, hoje abaixo de 71% a 78% do CDI, conforme o prazo.

O que acontece com a poupança se a Selic ficar abaixo de 8,5%?

A poupança nova passa a render 70% da Selic mais TR. Com a Selic a 8%, por exemplo, isso dá cerca de 5,60% ao ano. Pelo Boletim Focus de 5 de outubro, porém, a Selic não chega a esse patamar até 2030. A poupança antiga, anterior a maio de 2012, continua rendendo 0,5% ao mês mais TR em qualquer cenário.

Vale tirar dinheiro da poupança antes do aniversário?

Em geral, não. Quem saca antes do aniversário perde todo o rendimento do mês sobre o valor retirado. Se a decisão de migrar já está tomada, o ideal é esperar a data de aniversário e sacar logo depois. Para emergências reais, claro, a liquidez vem antes do rendimento.

Poupança ou Tesouro Reserva?

Para quem é correntista do Banco do Brasil, o Tesouro Reserva rende 100% da Selic, permite aplicações a partir de R$ 1 e resgates via Pix a qualquer hora. Mesmo com IR, ele rende mais que a poupança para dinheiro parado por mais de 30 dias. Para quem não tem conta no BB, o Tesouro Selic e o CDB de liquidez diária cumprem papel parecido.

Por que a poupança perdeu R$ 9,35 bilhões em setembro?

Por dois motivos principais: investidores trocando a caderneta por aplicações que rendem mais com segurança semelhante e famílias usando a reserva para pagar dívidas. A saída se concentra nas contas de R$ 10 mil a R$ 50 mil, segundo o censo do FGC.

Conclusão

A promessa de que a poupança volta a valer a pena com a Selic caindo esbarra em um detalhe técnico com efeito muito concreto: a TR. A parte fixa da caderneta não muda, mas a TR encolhe junto com os juros, e foi ela que manteve a poupança acima de 8% nos últimos anos. Os números mostram que a distância para o CDB de 100% do CDI diminui, de cerca de 3 pontos para pouco mais de 1 ponto no cenário do Focus, mas não chega a zero. Na pergunta poupança ou CDB, o empate existe apenas para quem aplica em CDBs que pagam pouco, para quem tem poupança antiga com juros bem mais baixos que os de hoje, ou como desvantagem para quem saca fora do aniversário.

A decisão mais inteligente, então, não depende de acertar o próximo movimento do Copom. Depende de dar a cada real a função certa: liquidez e segurança para a reserva, prazo e rendimento para os objetivos com data. Se quiser acompanhar a evolução do rendimento da caderneta ao longo do ciclo, a Meelion atualiza diariamente o rendimento acumulado da poupança, que você pode comparar com as taxas de renda fixa disponíveis antes de mover o seu dinheiro.

Este artigo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento. Os dados referem-se a 11 de outubro de 2026, e as simulações usam o cenário do Boletim Focus de 5 de outubro e estimativas de TR baseadas em ciclos anteriores. As taxas mudam diariamente: confirme taxa, prazo, liquidez e cobertura do FGC diretamente com a instituição antes de investir.

Glossário

  • Selic: taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Copom. Influencia empréstimos, financiamentos e a remuneração dos investimentos de renda fixa.
  • CDI (DI): taxa de referência dos investimentos em renda fixa, próxima à Selic. Serve de base para a maioria dos CDBs pós-fixados.
  • CDB: empréstimo que o investidor faz ao banco em troca de uma remuneração, que pode ser um percentual do CDI, uma taxa prefixada ou atrelada à inflação.
  • Poupança (caderneta): depósito bancário com regra de remuneração definida em lei, isento de IR para pessoa física e com rendimento creditado no aniversário.
  • Poupança antiga: depósitos feitos antes de 4 de maio de 2012, que rendem sempre 0,5% ao mês mais TR, independentemente da Selic.
  • TR (Taxa Referencial): índice calculado pelo Banco Central a partir da TBF, com um redutor. Soma-se à parte fixa da poupança e cai quando os juros caem.
  • TBF (taxa básica financeira): taxa calculada com base nos juros dos CDBs prefixados de 30 a 35 dias dos grandes bancos. É a matéria-prima da TR.
  • Aniversário: data mensal em que o depósito na poupança completa mais um mês e recebe o rendimento do período.
  • Captação líquida: diferença entre depósitos e saques em um período. Quando negativa, indica saída de recursos.
  • SBPE: Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, a parcela da poupança direcionada principalmente ao crédito imobiliário.
  • Poupança rural: parcela da poupança cujos recursos financiam o crédito ao agronegócio.
  • Copom: Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reúne a cada 45 dias para definir a Selic.
  • Boletim Focus: pesquisa semanal do Banco Central com as projeções de mercado para Selic, inflação, câmbio e crescimento.
  • IR regressivo: tabela de Imposto de Renda da renda fixa, com alíquotas de 22,5% a 15% conforme o prazo da aplicação.
  • IOF: Imposto sobre Operações Financeiras, cobrado sobre o rendimento em resgates antes de 30 dias, com alíquota que cai até zerar.
  • FGC: o Fundo Garantidor de Créditos, que protege até R$ 250 mil por CPF por instituição em depósitos e títulos elegíveis, como poupança, CDB, LCI e LCA.
  • Tesouro Selic: título público pós-fixado que acompanha a Selic, negociado no Tesouro Direto, a plataforma de títulos emitidos pelo governo federal e comprados diretamente pelo investidor.
  • Tesouro Reserva: título público lançado em 2026 que rende 100% da Selic, sem marcação a mercado, com aplicação e resgate via Pix a qualquer hora.
  • LCI / LCA: investimentos isentos de Imposto de Renda para pessoa física, ligados ao setor imobiliário (LCI) e ao agronegócio (LCA).
  • Liquidez diária: possibilidade de resgatar o investimento em qualquer dia útil, com o rendimento acumulado até a data.
  • Marcação a mercado: atualização diária do preço de um título conforme as taxas negociadas no mercado, que pode gerar oscilações antes do vencimento.
  • Custódia B3: taxa cobrada pela bolsa para guardar os títulos do Tesouro Direto, de 0,20% ao ano sobre o valor acima de R$ 10 mil.
  • Ponto percentual (p.p.): diferença absoluta entre duas taxas. De 11,26% para 8,24%, por exemplo, a diferença é de 3,02 pontos percentuais.

Fontes Consultadas

Dan Mark Printes

Dan Printes é fundador da Meelion e empreendedor na área de tecnologia. Atua com inteligência artificial, produtos digitais e investimentos, com especial interesse em renda fixa e na aplicação de tecnologia para tornar decisões financeiras mais simples e inteligentes. Neste espaço, compartilha insights sobre investimentos, economia, renda fixa e outros temas relacionados ao mercado financeiro.

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